ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil
Enviada em 12/03/2021
Brás Cubas, o desfunto autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. Partindo desse preceito, talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: devido à intensa exclusão de pessoas surdas no Brasil. Nesse contexto, entende-se que esse problema — caracterizado como um desafio para a formação educacional dos surdos — está relacionado com à falta de adequação das escolas e negligência por parte da sociedade.
É válido retratar, em primeira análise, a realidade das pessoas com deficiência nas escolas brasileiras. De fato, a adaptação do ambiente escolar para os deficientes auditivos é praticamente nula, o que explica o fato de muitos brasileiros nunca terem estudado com um surdo em sua classe. Dessa forma, simples recursos que aumentariam a qualidade do ensino — como a devida capacitação dos professores, a instrução da Libras para os alunos e o ajuste do espaço — não são disponibilizados a esses indivíduos. Assim, as crianças e adolescentes surdos se deparam com uma formação educacional obsoleta e despreparada, o que gera a desmotivação pela falta de perspectiva de futuro e, consequentemente, a evasão escolar.
Cabe considerar, em segunda análise, a baixa inclusão de surdos no mercado de trabalho — a qual é fruto do preconceito da sociedade. Segundo a educadora brasileira Rosita Edler Carvalho, o desafio do milênio é conscientizar a sociedade de que as limitações impostas pelas diversas manifestações de deficiências não devem ser confundidas com impedimentos. Sob esse viés, a desqualificação errônea dos surdos no mercado de trabalho afeta não só a vida desses indivíduos formados, mas também desestimula os jovens portadores de deficiência a seguirem o caminho da formação acadêmica.
Portanto, a partir desse cenário, faz-se necessária a mudança da mentalidade social acerca desses cidadãos brasileiros, os quais merecem o direito a oportunidades igualitárias e acesso a um estudo digno. Logo, o Ministério da Educação deve promover um ensino de qualidade às pessoas com deficiência auditiva, por meio da inserção das Libras na grade curricular de escolas públicas e privadas, do fornecimento de cursos qualificantes para os professores e da adequação do ambiente escolar para essas pessoas — como a implementação de sinais luminosos para substituir os sinais sonoros. Espera-se que, com essa medida, possam ser superados os desafios para a formação de surdos no país e, assim, construir um legado do qual Brás Cubas pudesse se orgulhar.