ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Enviada em 24/11/2020

Machado de Assis escreve, em sua obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sobre o interesse que o personagem principal desenvolve por Eugênia e como ele decidiu não levar um romance com a moça adiante exclusivamente porque ela era coxa. A forma despreziva com a qual o personagem vê Eugênia é equivalente ao tratamento que os deficientes recebem da sociedade brasileira. Assim sendo, o preconceito continua diariamente sendo uma barreira entre os surdos, uma educação decente, uma boa sociabilização e um emprego estável.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 9,7 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva, representando 5,1% da população do país. Todavia, a Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), idioma reconhecido legalmente como meio de comunicação em 2002, por meio da sanção da Lei n° 10.436, ainda não têm a influência que deveria. O idioma foi criado com a intenção de facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes, porém o obstáculo permanece, uma vez que a Libras está indiretamente restrita à comunidade surda. Arthur Schopenhauer dizia que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam o seu entendimento a respeito do mundo que o cerca, e essa situação é um perfeito exemplo: a Libras não é obrigatória nas escolas ou em cursos de licenciatura, e fica, muitas vezes, disponível como matéria optativa. A questão é que os ouvintes não precisam aprender a língua para se comunicarem, e deixam a opção de lado, desconsiderando a possibilidade de precisarem dela para manterem uma conversa com uma pessoa surda no futuro.

Por conseguinte, a empregabilidade também é prejudicada. A falta de capacitação dos professores e acessibilidade das escolas e faculdades dificulta a educação dos surdos, por isso, boa parte deles possui escolaridade apenas até o ensino médio. Aqueles que possuem ensino superior, conseguem acesso melhor, mas não menos complexo, uma vez que a maioria das empresas não possui tecnologia assistiva ou intérpretes.

Em síntese, para que os problemas sejam resolvidos, cabe ao Governo e ao Ministério da Educação incluir Libras como disciplina curricular obrigatória na educação básica e nos cursos de graduação eminentemente voltados para a educação (as licenciaturas), para ampliar a capacitação dos professores, assim como a inserção de intérpretes em todas as salas de aula em que haja um ou mais surdos. Dessa forma, os surdos não apenas teriam um melhor acesso à educação, como também a sociedade estaria mais preparada para se comunicar com eles, e, assim, a população brasileira caminharia na direção de um mundo mais inclusivo.