ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Enviada em 21/10/2021

Ao longo do século XX, os ideais eugenistas atingiram o seu ápice e uma de suas facetas traduzia-se no reforço da estigmatização de pessoas deficientes como inferiores e não desejáveis no corpo social. Inevitavelmente, esse legado sócio-histórico, muito presente no Brasil, resulta na insistência das lacunas de inclusão dos surdos no país. Embora a Constituição garanta, em teoria, o direito à educação e à cultura como universais, o apartheid social dos não ouvintes permanece, visto o despreparo institucional no que tange ao ambiente escolar limitado em profissionais capacitados, como os intérpretes e a não inclusão da Libras como disciplina obrigatória no ensino básico.

Primordialmente, a impossibilidade do cidadão portador de deficiência auditiva exercer o seu acesso aos meios culturais, como cinema e teatro, revela a profundidade da desigualdade e, também, da pouca convivência com o resto da sociedade. Sendo assim, isso se estende para as redes de ensino, nas quais, muitas vezes, também não há tradução simultânea para os alunos surdos, por consequência, esse entrave pode gerar obstáculos e constrangimentos no processo educacional desses estudantes, desestimulando-os pela falta de integração ao ambiente. Dessa forma, os mesmos poderão enfrentar dificuldades no ingresso ao ensino superior, bem como ao mercado de trabalho, causadas pela defasagem da base curricular, o que representa um ciclo vicioso extremamente prejudicial e excludente.

Outrossim, a obrigatoriedade da aprendizagem da língua de sinais é essencial para todos, inclusive os ouvintes. Além de propiciar a comunicação plena e abrangente, adiciona-se um novo repertório cultural, que busca afastar a visão preconceituosa para com os surdos, acreditando que eles quem deveriam se adaptar ao considerado ‘’normal’’ para serem aceitos. Por isso, ao dar importância a esse fator, busca-se eliminar a hierarquização entre os indivíduos, na qual o deficiente é colocado como limitado e sua contribuição social é totalmente descredibilizada. Assim, a lógica binária de superioridade dos não surdos ou não deficientes deve ser superada a partir da imersão desse grupo na cultura e vivência do outro.

Portanto, diante do exposto, é imperativo que o Ministério da Educação crie uma atmosfera de valorização da inclusão nos ambientes escolares, por meio da ampliação da carga horária de estudo acerca desse tema nos cursos superiores de licenciatura, para que todos os profissionais, não apenas os intérpretes, por exemplo, sejam adequadamente qualificados para lecionarem aos alunos surdos. Em adição, a inserção do domínio da Libras nos primeiros anos de escolarização, pelo MEC, acarretará na superação da supremacia da língua oral e de seus falantes, em prol de uma sólida igualdade de oportunidades e direitos em âmbito absoluto, na qual é respeitada o que menciona a Constituição.