ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Enviada em 04/07/2021

Em sua obra “O Cidadão de Papel”, o autor brasileiro Gilberto Dimenstein disserta a respeito da ineficácia das leis presentes em documentos oficiais, de modo que os direitos legais restringem-se à teoria. Nesse sentido, é possível afirmar que tal análise aplica-se à educação de surdos no Brasil, uma vez que não são promovidas ações efetivamente inclusivas à população que apresenta deficiência auditiva no país, resultando na exclusão social desse grupo. Diante disso, evidencia-se que a alienação da sociedade, bem como o conservadorismo dos métodos pedagógicos aplicados na educação de surdos, são entraves para a formação educacional adequada de indivíduos com deficiência auditiva.

De início, ressalta-se a falta de atenção pública à condição inferior da instrução recebida por surdos como elemento perpetuador dessa realidade. Nesse contexto, a filósofa alemã Hannah Arendt, em seu livro “Eichmann em Jerusalém”, destaca a carência de julgamentos morais como causa da banalidade de situações nefastas a um conjunto de indivíduos. Dessa forma, a falta de debates públicos acerca da qualidade limitada do processo de formação educacional dedicado a pessoas com surdez resulta em uma postura coletiva de conformismo em relação à desigualdade na qualificação escolar entre aqueles que apresentam surdez e os que não apresentam.

Ademais, a precária inovação nas técnicas utilizadas no ambiente escolar contribui para a manutenção desse cenário. Essa colocação condiz com a teoria do célebre pensador Edgar Morin, segundo a qual o sistema educacional atual prioriza o uso de instrumentos tradicionais a ferramentas adaptadas às necessidades de cada aluno. Assim, é necessário transformar a forma com que se ensina, buscando-se variar as intervenções pedagógicas de acordo com as dificuldades de alunos com deficiência, atitude que é beneficiada pela extensa variedade de ferramentas tecnológicas voltadas à educação disponíveis na atualidade.

Verifica-se, portanto, a permanência de obstáculos estruturais na qualificação educacional de surdos no Brasil. Logo, cabe ao Governo Federal, em parceria com o Ministério da Educação, o planejamento e execução de palestras em ambientes públicos — como praças, escolas e universidades —, por meio da participação de profissionais especializados na área de educação, a fim de informar a população sobre a existência de um problema na educação de indivíduos com surdez. Tal estratégia é essencial para combater a alienação social e incentivar debates públicos sobre a circunstância em questão, resultados que motivariam cobranças públicas a escolas que não adequam seu método de ensino àqueles que possuem necessidades especiais. Com isso, seria possível mitigar a condição de subcidadania com que lidam indivíduos surdos no Brasil contemporâneo.