ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Enviada em 29/01/2018

Durante século XIX, foi disseminado, pelo sociólogo Émile Durkheim, o pensamento segundo o qual a sociedade funciona como um organismo vivo, ou seja, todos os seus componentes deveriam viver em harmonia para que fosse possível conquistar o bem-estar da coletividade. Contudo, no Brasil, a persistência das dificuldades impostas à formação educacional dos surdos vai de encontro a esse anseio, uma vez que restringe e desqualifica a vida de muitos. Nesse contexto, urge o combate a essa realidade, o qual deve confrontar o mau uso dos bens públicos e a falta de diálogo.

É seguro dizer que o crescimento sem planejamento das cidades reforça o problema. Em consonância, na obra “A Urbanização Brasileira”, o geógrafo Milton Santos referencia que essa expansão ocorreu, primordialmente, sob interesses corporativistas devoradores do patrimônio coletivo. Sendo assim, muitas escolas deixaram de receber recursos importantes para o pleno desenvolvimento de uma educação inclusiva e universal. Nesse viés, cabe apontar que a falta de tecnologias assistivas de de professores capacitados no ensino de Libras são reflexos, diretos ou indiretos, dessa conjuntura de negligência que dificulta a formação educacional dos brasileiros com essa deficiência.

Ainda mais, um outro agravante é a ausência de um debate amplo sobre o tema, envolvendo os diversos setores sociais. De fato, parafraseando o sociólogo Jurgen Habermas, a incapacidade de usar uma “razão comunicativa” impede a superação de muitas mazelas. Logo, a falta de um debate esclarecedor sobre a surdez condiciona uma visão limitante de soluções, perpetuando a problemática e fortalecendo os preconceitos. Muitos acreditam, por exemplo, na incapacidade generalizada dos que possuem essa deficiência. Nitidamente, um indício da existência de um preconceito que agrava a questão e demanda ser superado, principalmente por dificultar o acesso dos surdos à educação e à cidadania. Fica clara, portanto, a necessidade de enfrentar essa situação.

Com o fito de garantir o direito à educação para surdos, é necessário que a União, por meio do MEC e através do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), priorize e viabilize a educação para os surdos, por meio da aplicação correta dos recursos públicos, liberando verbas e incentivos fiscais para a capacitação de professores de Libras e a instalação de equipamentos assistivos. Ao mesmo tempo, as escolas, aliadas à sociedade organizada, devem instigar o debate sobre o tema, mediante programas pedagógicos, cartilhas e produções culturais que desnaturalizem os preconceitos e valorizem a equidade e a alteridade. Dessa forma, os indivíduos e o diálogo serão fortalecidos e a formação educacional dos surdos facilitada.