ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 21/12/2018

O livro “1948” de George Orwell retrata uma sociedade manipulada na qual está inserida Winston, o personagem que questiona sobre os limites da alienação do meio e a capacidade crítica individual. Hodiernamente, fora do universo literário, a polêmica permanece, agora atrelada ao ambiente virtual brasileiro: a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Nessa perspectiva, importa a discussão coletiva sobre a falsa sensação de liberdade predominante na rede devido tanto à necessidade de maior criticidade pelo internauta quanto pela imposição de uma homogeneização cultural pela via tecnológica. É elementar que se leve em consideração, primeiramente, a instrumentalização do agir humano dentro de ideais pré-selecionados por algoritmos como produto da acriticidade característica da pós-modernidade. Nesse sentido, o filósofo Gilles Deleuze apresenta a ideia dos mapas cognitivos da sociedade controlada- cruzamento de preferências individuais para sintetizar um leque de opções restrito e alienante. Nesse viés, os mapas de cognição como o que vestir, para onde viajar ou qual tipo de relacionamento ideal são definidos pelo código binário, que se alimenta de diversas informações fornecidas pelos usuários na virtualidade e manipula o comportamento individual, por meio da propagação da sensação de controle e liberdade ao escolher dentre opções que, em verdade, já estão pré-delimitadas. Evidencia-se, dessa forma, que a falta de senso crítico por parte da população brasileira facilita esse viés totalitário dos mapas de Deleuze ao isolar o cidadão em uma espécie de “bolha”cercada pelos gostos pessoais dele, que, por conseguinte, não questiona a estrutura fordista na qual está inserido, em que o ritmo da esteira é marcado pelo cruzamento de algoritmos em rede. Faz-se mister, ainda, salientar o poder do “e-commerce” na indefinição das fronteiras entre a obediência influenciada e a autonomia optativa. Nessa esteira, a célebre Teoria da Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer expõe que o sujeito é heterônomo nas escolhas que faz quando a cultura de massa é que define o que é certo ou errado em termos comportamentais. Nesse tangente, a partir da indução cognitiva do indivíduo, por intermédio de propagandas direcionadas e que atuam em nichos (segmentos de mercado), a população é orientada para o que a lógica capitalista concebe como necessário na internet. Prova dessa massificação do agir pessoal é a explosão do “e-commerce”, cuja faixa de vendas majoritária é constituída de produtos idealizados, como Iphones, marca da homogeneização do gosto imposto pela seleção criteriosa de dados pela rede. Urge, dessa forma, libertar o cidadão dessa artificialidade condutiva. Isso posto, indubitavelmente, medidas são necessárias para que a utilização de informações na internet não seja mais posta a favor da lógica manipulativa. Assim sendo, impende que o Ministério da Comunicação, com apoio das agências reguladoras, promova uma campanha na mídia engajada, valendo-se de plataformas como Facebook, Twitter, YouTube, dentre outras, para alertar e estimular, com a exposição de múltiplos pontos de vista sobre o tema por profissionais como psicólogos, propagandistas e psiquiatras, o senso crítico do internauta, a fim de fomentar a autonomia optativa no sujeito. Feito isso, a população poderá, como Winston, superar a supremacia ideológica do meio e relegar a coerção à obra orwelliana.