ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 17/08/2019

Para o filósofo francês Sartre, o homem estaria condenado à liberdade. Na era digital, no entanto, esse pensamento está cada vez mais distante da realidade graças à manipulação do comportamento dos usuários na internet com o uso de algoritmos. Em função disso, um novo, sofisticado e organizado isolamento social surge, no qual os consumidores têm contato apenas com o que lhes agrada. Diante disso, o debate precisa se expandir para todos os setores da sociedade para conscientização da população sobre o funcionamento dos algoritmos, garantindo, assim, uma liberdade plena a todos.

Em primeiro lugar, é preciso considerar a falsa sensação de deliberação gerada por serviços de entretenimento online. O usuário faz algumas escolhas iniciais baseadas em seus gostos pessoais e, a partir disso, linhas de códigos de programação começam a mapear as preferências do cliente através de palavras-chave usadas por ele. Em pouco tempo, todas as opções recomendadas se relacionam, de alguma forma, com as iniciais. Como resultado, as pessoas pensam escolher; a verdade, porém, é que a escolha sempre recai sobre o algoritmo. Isso é prejudicial, pois a autonomia do usuário em discernir o que lhe é bom e o que pode experimentar de novidade fica limitada, tolhendo sua capacidade de decisão.

Por conseguinte, os algoritmos podem afetar diretamente a sociabilidade do consumidor. Através de recomendações de amizades da própria plataforma, eles se isolam em bolhas sociais, das quais só indivíduos alinhados com os seus gostos pessoais participam. Dessa maneira, a aptidão que o usuário tem em conviver com pessoas que aderem a opções que estão além dos seus interesses diminui muito e isso pode resultar em maior intolerância à pluralidade de ideias. Em grande escala, os efeitos dessa segregação afetam profundamente o convívio em sociedade.

Portanto, o Estado deve tomar providências para minimizar os danos potenciais que os algoritmos podem causar aos cidadãos. Para tanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em parceria com as secretarias estaduais e municipais, deve promover, por meio de recursos públicos, palestras com a participação de divulgadores científicos, formadores de opinião e profissionais da área sobre o funcionamento dos algoritmos e seus riscos à soberania do usuário. Dessa forma, o debate tenderá a se ampliar, tentando atingir a todos que acessam a internet para criar, assim, uma conscientização coletiva. Só assim o Brasil poderá guinar para alternativas menos prejudiciais socialmente a longo prazo, usufruindo de tudo o que o entretenimento online pode trazer e, em um sentido positivo, condenando o homem à liberdade novamente.