ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 06/05/2020

Sabe-se que o desenvolvimento técnico-informacional vem mudando nossos interesses, hábitos e sociabilidades há décadas, principalmente pós o advento da internet. Roger Chartier, em um texto intitulado “Do códex à tela”, reflete sobre as mudanças nos suportes de leitura e a consequente transformação do ato de ler, em âmbito mental e corporal, assim, nos traz um exemplo de como o ambiente virtual interfere no comportamento humano.  Logo, e o conteúdo que consumimos e a forma com que são selecionados influem de maneira direta nas opiniões, desejos e escolhas, ou seja, na percepção da realidade dos indivíduos. Desta forma, o controle dos dados dos internautas pode contribuir para o abuso de poder político, bem como alavancar empresas em detrimento da qualidade de repertório intelectual dos usuários da internet.

O uso da internet é norteado por grandes empresas, com seus softwares, programas e rede sociais. Tais empresas movimentam bilhões, geralmente contabilizados em dólares, por ano. Por conseguinte, alcançaram alta posição hierárquica nas relações de poder, tendo, portanto, seus próprios interesses econômicos e até mesmo políticos. Além disso, a internet se coloca como um meio de companha política, em que os algorítimos impossibilitam a diversificação de informações. Por isso, o meio virtual pode colaborar para uma espécie de censura das opiniões contrárias aos interesses econômicos das empresas que gerem e do poder político instituído.

O consumo de conteúdo na internet, seja ele material, cultural ou artístico, quando intersectado pelo controle de dados dos usuários, pode ser induzido perante uma pré seleção. Assim sendo, o que num primeiro momento pode parecer cômodo para o internauta, pela disposição de informações de seu interesse, também o limita. Mecanismos que a princípio seria um terreno fértil para a aprendizagem e  o conhecimento se tornam, desta forma, prejudiciais à descobertas de outros interesses, condensando o repertório intelectual ao invés de tornar múltiplas as possibilidades do saber e do consumo.

Dados pessoais não deveriam servir às predileções das grandes empresas  e estarem disponíveis a manipulação desenfreada. Num momento em que os dados dos indivíduos se tornaram mercadoria, em que assistimos a furos jornalísticos de vendas de dados, deve-se se ater as leis já existentes relacionadas ao tema, bem como incentivar a criação e uso de programações alternativas que visam o respeito a diversidade de produções, informações e conteúdos que circulam na atualidade, para que possamos, de fato, escolher o que queremos comprar, assistir, ouvir e ler e para que conteúdos que acabam ficando escondidos possam ter a chance de também serem acessados.