ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 10/09/2021

Lima Barreto, em seu livro “Os Bruzundangas”, criticou vários aspectos do Brasil na primeira metade do século XX, mormente no que tangia às mazelas sociais. No entanto, apesar do tempo decorrido desde a publicação da obra, ainda hoje se faz necessário apontar e discutir inúmeros problemas que subsistem no país, destacando-se, por certo, a problemática da manipulação do comportamento do usuário através do controle de dados na internet, a qual ocorre, infelizmente, em razão da negligência governamental e da sociedade.

Em primeira análise, nota-se que a Constituição Cidadã de 1988 assegura a todo brasileiro o direito à liberdade e livre arbítrio. Contudo, esse direito não é efetivado. Isso é explicitado na medida em que algoritmos de controle de dados constroem sugestões excludentes de acordo com o consumo do indivíduo, limitando as opções e induzindo um tipo específico de conteúdo. Nessa esteira de pensamento, cabe lembrar as ideias do filósofo contratualista inglês John Locke, o qual dizia que o indivíduo, por ter sua relação com o Estado baseada na confiança mútua, pode sempre que essa confiança for rompida - como no desrespeito supracitado à Carta Magna -, rebelar-se e reivindicar seus direitos. Dessarte, é dever do cidadão exigir o cumprimento da lei maior.

Outrossim, a própria sociedade é responsável pela manutenção desse problema. Tristemente, grandes empresas visam objetivamente o lucro e a expansão do negócio. Desse modo, optam pelo meio que mais gera engajamento, empurrando conteúdos reincidentes, induzindo o consumidor a ficar sempre na mesma esteira de consumo. Todavia, segundo o pedagogo francês Célestin Freinet, é possível superar qualquer pensamento errôneo já estabelecido em uma sociedade, bastando, para isso, o desejo de mudança dos agentes sociais. Assim sendo, uma mudança nos valores do corpo social é fundamental para mitigar o controle do comportamento pelo manejo de dados na internet.

Diante dos fatos citados, é fulcral que o Estado, por meio de uma parceria entre o Ministério da Educação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, crie um projeto para ser desenvolvido nas escolas o qual promova palestras e atividades lúdicas a respeito dos direitos constitucionais da liberdade, bem como crie métodos para regulamentar a manipulação de dados, de modo que não prejudique o consumo do indivíduo e suas opiniões não mais sejam moldadas. Porquanto que ações culturais coletivas têm imenso poder transformador, espera-se que a comunidade escolar e a sociedade no geral, consequentemente, conscientizem-se. Se assim for feito, o Brasil estará um passo mais próximo de deixar de ser o país que Lima Barreto criticava, para tornar-se um país desenvolvido de fato.