ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 24/10/2021

Durante o século XVI, a Igreja Católica, visando manipular o comportamento da população e restringir ideias contrárias as suas próprias, estabeleceu o “Index”, política de censura que limitava os livros e conteúdos manuscritos acessados pelos fiéis. De maneira análoga a tal “cercamento” informacional, a contemporaneidade atravessa um período de controle comportamental imposto não por uma instituição, mas pelo algoritmo das redes, que mascara a seletividade na divulgação de postagens e ameaça a ordem democrática de diferentes nações.

Convém ressaltar, a princípio, a incompetência das plataformas digitais em esclarecer os termos de privacidade e os meios de “filtragem” de conteúdo aos quais seus clientes são submetidos. Redes sociais como o Facebook não possuem nenhum mecanismo que destaque a pré-seleção de informações que eventualmente chegam aos indivíduos, o que faz com que esses sejam trancados em uma bolha de conteúdos altamente tendenciosos e que coincidem com as preferências do usuário, criando uma realidade alternativa na qual ideias específicas são elogiadas e outras (as de oposição) são totalmente excluídas ou invalidadas. Logo, a seleção de dados na internet acontece “por trás dos panos” e aliena as pessoas da possibilidade de explorar novos posicionamentos enquanto incentiva o extremismo.

Visto que os internautas, por intermédio do controle informacional, são aprisionados dentro de nichos, o sistema democrático, integrado por tais pessoas, é colocado em risco ao passo em que a realidade não-manipulada se torna inacessível à população. Tal relação foi evidenciada no escândalo das “fake news” (notícias falsas) que permearam as eleições americanas de 2018: eleitores foram comprovadamente manipulados por publicações mentirosas na internet e escolheram seu presidente influenciados pela distorção de realidade promovida pelos algoritmos. Desse modo, é possível entender o controle de dados como prejudicial ao exercício pleno da democracia, já que este impede a verdadeira percepção do mundo.

Portanto, compreendendo a importância da amenização do quadro vigente no que se refere ao controle comportamental feito pelas redes digitais, fica claro a necessidade de ações transformadoras. Dessa maneira, urge que o Poder Legislativo, por meio de um projeto de lei, imponha às grandes plataformas da internet a obrigatoriedade de uma política transparente do uso de dados da população que torne pública e acessível os meios utilizados para a seleção dos conteúdos e que necessite de autorização do usuário para a “personalização” das informações para evitar a alienação desses. Assim, a população se afastará das “rédeas controladoras” que a assola desde os tempos do Index.