ENEM 2018 - Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet

Enviada em 16/11/2021

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento redigido no século XVIII em plena revolução francesa, celebrava ideais iluministas, até então revolucionários, de liberdade individual e individualidade, regeitando a imposição da vontade de despotas sobre a população. Embora as sociedades modernas tenham florescido em torno dessas ideias, a manipulação das massas ganhou nova roupagem. Agora menos policialesca e mais sutil, volta a ameaçar a independência: na era da informatividade, o homem abre mão de sua privacidade em prol de uma promessa de conveniência, ignorando o perigo da manipulação mercadológica na rede e pondo em risco sua diversidade cultural.

É relevante abordar, primeiramente, a ilusão de liberdade, construida de maneira independente sob a lógica do capital financeiro: consumidores são levados a acreditar que consomem o que bem entendem quando, na verdade, são sutilmente direcionados por algorítimos e tecnologias de inteligência artificial. Esse manipulação sutil do comportamento dos usuários, que incusive é personalizada e apela a anseios particulares, é extremamente eficiente, na medida em que induz ao consumismo desenfreado. Trata-se, por exemplo, de propagandas que se valem da manipulação dos dados para oferecer um produto associado a uma fraqueza do usuário, maximizando assim os lucros e reduzindo o ser humano a um mero meio para um fim: a prospecção de riqueza.

Paralelo a isso, vale ressaltar a potencialização dos mecanismos da industria cultural. Teorizado por filósofos da escola de Frankfurt em meados do século XX, o conceito versa sobre a influência da mídia de massa sobre a construção cultural da sociedade, tornando-a menos estratificada e adequada aos moldes do consumo. Considerando que, segundo dados do IBGE, Instituto Brasileiro de geografia e Estatística, 76,4% dos usuários da rede consomem produtos de entretenimento através de plataformas online como Netflix, é preocupante o impacto que a chamada “arte sobre demanda” pode ter sobre as culturas regionais.

Faz-se, portanto, imprescindível repensar a interação entre usuários no mundo virtual, a fim de garantir a concepção de um mundo coerente com os ideais libertários do iluminismo. Dessa maneira,  urge que o Poder Legislativo atue coibindo a manipulação, impondo à empresas de telecomunicações a devolução do controle de dados aos usuários, inclusive aplicando multas severas em caso de uso ilegal dessas informações. Uma alternativa é permitir que o próprio usuário desative o envio automático de dados à aplicativos de empresas. Além disso, o Ministério da Educação deve exigir a presença de regionalidades na grade do ensino básico, a fim de mitigar uma visão da produção artistica e cultural aos moldes do consumismo. Com isso, recuperar-se-á o ideal libertário das redes.