ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 12/09/2025

A democratização do acesso ao cinema no Brasil constitui um desafio persistente diante das desigualdades socioeconômicas e regionais do país. Embora o cinema seja reconhecido como a “sétima arte” e exerça papel formador de identidades, grande parte da população permanece afastada dessa experiência cultural. Nesse sentido, é pertinente discutir os obstáculos que dificultam tal acesso e propor medidas efetivas para garantir que esse direito seja universalizado.

Em primeiro lugar, é relevante destacar que as barreiras econômicas restringem o consumo cultural no Brasil. O filósofo Pierre Bourdieu afirma que a cultura é também um capital, cuja posse diferencia grupos sociais. Isso explica por que, em um cenário em que o ingresso para o cinema chega a custar mais de um terço do salário mínimo diário, a ida às salas torna-se privilégio de poucos. Dessa forma, a arte, que deveria servir como instrumento de emancipação e reflexão coletiva, converte-se em mercadoria inacessível para a maioria.

Ademais, a desigualdade regional agrava a exclusão cultural. De acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), mais de 70% das cidades brasileiras não possuem salas de exibição. Esse fenômeno reproduz o que Darcy Ribeiro denominou de “exclusão estrutural”, ao manter populações periféricas e interioranas afastadas da produção cultural. Sem contato com diferentes narrativas, esses grupos ficam privados de experiências que, como exemplificado no filme Cinema Paradiso, representam muito mais que entretenimento: constituem memórias, afetos e consciência social.

Portanto, a democratização do acesso ao cinema no Brasil demanda políticas públicas integradas. É fundamental que o Estado invista em subsídios ao preço dos ingressos, em projetos de cinema itinerante e em parcerias com escolas, garantindo que a arte chegue a diferentes contextos sociais. Somente assim o cinema cumprirá seu papel social de ampliar horizontes e fomentar a cidadania. Como afirmou o cineasta Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” pode transformar o mundo — mas, para isso, é preciso que todos tenham a chance de vê-lo refletido na tela.