ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 04/11/2019

No século XVIII,o iluminista Voltaire,em ‘‘Cândido ou o Otimismo’’,promovera profunda ruptura com a filosofia romântica de Leibniz ao ironizar a compreensão de que se vivia no melhor dos mundos possíveis.Contemporaneamente,o complexo paradigma de como democratizar o acesso ao cinema no Brasil parece definitivamente legitimar as ideias protagonizadas pelo pensador francês.Nesse contexto,tal problemática constrói-se como subproduto da negligência estatal e inércia social.

Em uma primeira perspectiva,as dificuldades de equidade no acesso à cultura cinematográfica na sociedade brasileira erguem-se como uma realidade em decorrência da inabilidade governamental.Isso porque o Estado secundariza causas sociais que não se mostrem úteis ao fisiologismo de sua agenda,visto que,acastelado pelos seus governantes,ocorre a priorização de gastos em benefício próprio,como salários exorbitantes,em detrimento do investimento na redução de desigualdades sociais referentes ao acesso ao cinema pela população,haja vista a frequente ausência de infraestrutura,segurança e condições propícias ao desenvolvimento de atividades culturais nas periferias e locais distantes de centros urbanos.Como consequência,os direitos sociais,relacionados ao amplo acesso a cultura e presentes na Constituição Federal de 1988,são deslegitimados.

Ademais,convém ressaltar que os entraves na igualdade de oportunidades em relação ao cinema brasileiro arquitetam-se como expressão da inação social.Esse quadro sociológico instaura-se devido ao resultado de expressiva parcela populacional omitir-se diante de problemas sociais,já que considera a inércia preferível a mobilizar-se e pressionar o governo por mudanças,o que contribui para a manutenção de uma máquina pública inerte quanto à causa.Essa afirmativa possui estreita relação com a premissa defendida por Félix Guattari e Gilles Deleuze,filósofos franceses que refletem em ‘‘Mil Platôs,o fato da coletividade produzir corpos dóceis,com o intuito de torná-los apáticos e,por conseguinte,compactuarem com a realidade existente.Desse modo,a coletividade não se manifesta por medidas de apoio à população negligenciada culturalmente,e essa minoria permanece excluída.

Portanto, a displicência do Estado e a compactuação social instauram a realidade dos desafios da construção de um cinema democratizado no Brasil.Assim,o Poder Executivo Federal,sob a forma de Ministério da Educação e Cultura,deve promover políticas de inclusão social,por meio de incentivos a empresas que,em contrapartida,invistam na ampliação do sistema cinematográfico em regiões distantes, as quais funcionem em período integral.Concomitantemente,o Governo também deve investir na conscientização social a partir de propagandas publicitárias em horários nobres.Dessa forma,os cidadãos seriam dignificados e a filosofia romântica de Leibniz poderia,enfim,tornar-se realidade.