ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 05/11/2019
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José Saramago, é retratada uma sociedade que, paulatinamente, torna-se cega. Ao se afastar da ficção, nota-se que – muito além de como os indivíduos agiriam caso fossem cegos – o enredo apresenta, de maneira análoga, a posição de negligência do Governo e da sociedade frente aos entraves para a democratização do acesso ao cinema no Brasil. Diante disso, mitigar as mazelas que sustentam tal problemática, com o fito de ampliar a difusão de cultura por meio de filmes, é medida que se impõe.
Convém pontuar, a princípio, que a inação das esferas governamentais se configura como um dos pilares desse impasse. Tal fato é perceptível ao analisar os ínfimos investimentos em infraestrutura e ferramentas para democratizar o uso dos cinemas. Durante o período do regime militar; entretanto, considerado pouco ou nada democrático, existiam quase 30% a mais de salas do que em 2019,segundo a Agência Nacional de Cinema (ANCINE),o que ratifica o desinteresse dos governantes – visto que o aumento populacional foi acompanhado de uma redução dos cinemas.
Outrossim, a segregação espacial das salas cinematográficas corrobora para a persistência dessa problemática. Isso porque, com a acelerada urbanização e a formação de grandes centros, os cinemas – hodiernamente - estão localizados em áreas em que há uma concentração de renda, tornando-os uma ferramenta de difusão de cultura, infelizmente, extremamente elitizada e excludente. Esse cenário é comprovado pelos números divulgados por órgãos responsáveis, os quais demonstram que menos de 20% da população tupiniquim frequenta essas salas. Dessa forma, urge a necessidade de garantir a democratização do acesso a essa modalidade de exibição de filmes no Brasil.
Faz-se imprescindível, portanto, a adoção de medidas que amenizem essa problemática. Logo, o Estado, por meio dos órgãos que abrangem a cultura e o cinema, deve – mediante uma maior destinação de recursos e parcerias público-privadas, investir em infraestrutura e na redução do valor dos ingressos para as sessões, a fim de ampliar o número de salas e democratizar o acesso. Assim, talvez, ao garantir que grande parcela da população possa usufruir das salas cinematográficas, distanciar-se-á do enredo da obra de Saramago, pois Governo e sociedade não mais fecharão os olhos para esse problema social e os indivíduos deixarão de estar em condição de cegueira frente à utilização dos cinemas.