ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 05/11/2019

No filme “Cinema Paradiso”, por meio da exibição de filmes em uma pequena comunidade, toda uma cidade é transformada. Nesse sentido, o cinema tem a capacidade de inspirar, emocionar e cultivar sentimentos por intermédio de suas inúmeras vozes e estórias. Infelizmente, embora o número de salas de exibição no Brasil tenha dobrado nos últimos 20 anos, a democratização do acesso ao cinema ainda é bastante desigual no país. Desta forma, é fundamental que não só novos espaços sejam criados, como também novas vozes sejam ouvidas.

Antes de tudo, é mister ressaltar que, embora o cinema não esteja restrito às salas de exibição, o acesso a esta arte ainda encontra-se concentrado nas grandes cidades e nas regiões mais desenvolvidas do Brasil. Dessa maneira, o conceito de capital cultural cunhado pelo filósofo Pierre Bordieu é bastante relevante. Segundo o pensador, existe uma desigualdade no acesso à cultura e à educação que tende a manter o status quo da classe dominante que, por ter mais acesso ao conhecimento, tende a buscar uma educação melhor para seus filhos, por meio de visitas a museus, a teatros e ao cinema. Assim, como a maioria dos equipamentos culturais estão concentrados nas grandes cidades, a desigualdade tende a aumentar e o acesso ao cinema a diminuir.

Ademais, é importante que se compreenda que o empoderamento de uma comunidade também passa por quem pode contar a estória. Nesse contexto, segundo o filósofo Adorno, integrante da Escola de Frankfurt, existe uma indústria cultural, particularmente atuante a partir do início do século 20, cujo principal interesse é a venda da cultura e da arte como objeto de consumo. Dessa forma, há uma concentração e uma homogeinização das vozes ouvidas também usada como meio de dominação - o “soft power”. Nesse viés, iniciativas como a da Organização Não Governamental (ONG) Affro-Reggae, procuram dar voz à comunidades socialmente excluídas, por meio de exibições, cursos e workshops na área do cinema local, possibilitando com que jovens e adultos possam contar suas estórias, democratizando, assim, o acesso ao cinema nessas localidades.

É fundamental, portanto, que o Ministério da Educação (MEC) atue juntamente com ONGs no sentido de democratizar o acesso ao cinema no Brasil. Dessa forma, o MEC, por meio de parcerias com a Agência Nacional de Cinema (ANCINE) podem exibir filmes - locais, nacionais e estrangeiros - em locais de fácil acesso e de forma gratuita, assim como o filme Cinema Paradiso, a fim de democratizar o acesso ao cinema. Paralelamente, ONGs, como o Affro-Reggae, podem estimular o engajamento das comunidades na sua própria criação artística, por meio de cursos e workshops nessa área. Somente assim, será possível ampliar o acesso ao cinema e ouvir novas vozes nessa forma de arte.