ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 11/11/2019
O sociólogo francês Pierre Bourdieu foi quem primeiro cunhou o termo “Capital Cultural, segundo o qual o acesso a bens imateriais - as artes em geral - funciona como uma maneira simbólica de enriquecimento, que estaria intimamente ligado ao poder aquisitivo. Sob essa ótica, quanto maior o capital financeiro, maiores as formas de consumo de capital cultural. Hodiernamente, esse pensamento se vê representado na realidade brasileira ao nos depararmos com a falta de acesso democrático ao cinema, que afeta especialmente a população mais empobrecida. Nesse sentido, cabe compreender de que maneira a desigualdade social e as mudanças no tecido urbano brasileiro influenciam na continuidade desse problema.
A priori, é fundamental compreender como a alienação contribui para a perpetuação da exclusão do acesso à sétima arte. Nessa perspectiva, segundo assevera o filósofo alemão Karl Marx, ocorre um processo de alienação, o qual se configura como um sistemático impedimento de acesso a determinando bem. Ao considerar o cinema como um bem imaterial, fica claro que quando esse é vetado à parte da população, muitas vezes como reflexo da condição de pobreza em que vivem, lhe é privada uma forma de cultura que promove senso crítico capaz de leva-la a uma reflexão mais profunda sobre a própria condição. Sem tal reflexão a possibilidade de tomar uma posição proativa frente aos problemas sociais é muito baixa, o que resulta na permanência da desigualdade na qual se encontram. A posteriori,embora a Constituição Cidadã de 1988 garanta o direito ao lazer, a universalização do cinema não tem sido garantida às populações periféricas ou de áreas com baixa concentração demográfica. Essa forma de segregação condiz com o conceito de Indústria Cultural, do sociólogo alemão Thedoro Adorno. Segundo ele, com a popularização das mídias visuais no começo do século XX, o interesse pelo ganho financeiro sobrepôs-se ao interesse pela cultura em si. Esse pensamento pode ser comprovado pela redução da quantidade de salas de cinema em cidades pequenas – que na década de 70 era de quase 80% - e a preferência por concentrá-las nas urbes. Logo, é inegável que mudanças na estrutura das cidades impactaram diretamente na problemática da democratização do acesso ao cinema no Brasil.
Portanto, a fim de universalizar o consumo de produções fílmicas como capital cultural e como direito constitucional, medidas práticas devem ser tomadas. Por isso, cabe às Secretarias Municipais de Cultura, órgãos de administração municipal responsáveis por políticas públicas de acesso à cultura, criar mostrar de cinema, por meio de verba especial liberada para tal finalidade, de forma gratuita, a fim de garantir que cidadãos possam ter acesso a filmes em locais onde não existam cinemas.