ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 12/11/2019
José Lins do Rêgo, célebre autor de Menino de Engenho, conta, em suas memórias, que despertou o gosto pela literatura ao ouvir, quando criança, os contos de Velha Totônia, uma andarilha pobre das fazendas do brejo paraibano. Analogamente, o cinema também é uma fonte de inspiração para o espectador, pois, com sua capacidade de transformar a imaginação em imagens, tem um poder catártico arrebatador. No Brasil, contudo, ele não é democrático, uma vez que é concentrado em espaços caros e convive com um novo mercado mais acessível, além de um velho problema: o streaming e a pirataria.
Precipuamente, os cinemas brasileiros estão concentrados em shoppings centers, favorecendo, assim, a segregação socioespacial. Nessa perspectiva, vale lembrar do pensamento do geógrafo Milton Santos, para quem os centros urbanos concentram os chamados “espaços luminosos”, isto é, congregam todos os principais serviços da cidade. Isso faz com que a periferia , já com problemas graves de mobilidade urbana, não consiga usufruir dos programas culturais, devido não só à distância, mas também ao alto preço desses lugares elitizados. Destarte, ocorre, infelizmente, um injusta disparidade de acesso ao lazer de pessoas de classes distintas.
Ademais, segundo o historiador Eric Hobsbawm, o mundo vive a Terceira Revolução Industrial, marcada pelo intenso fluxo de dados e novas tecnologias. Por conta disso, o cinema convive com a competição com novas ferramentas, como o streaming, por exemplo, que permite ver diversos filmes no conforto do lar e a preços baixos. Outrossim, a internet, por meio, principalmente, do programa “UTorrent”, possibilita a aquisição de diversos conteúdos de forma ilegal. Tudo isso, somado ao problema de segregação supracitado, faz com que o cinema, lamentavelmente, não seja uma opção viável para quem ganha até dois salários mínimos, o quê, de acordo com o IBGE, corresponde à maioria dos brasileiros.
Portanto, para tentar tornar o cinema mais democrático no Brasil, o Ministério da Cidadania deve promover caravanas culturais nas periferias e no interior do país. Isso pode ser feito por meio de parcerias com as prefeituras, e deverá contar com caminhões para carregar toda a infraestrutura necessária para fazer as pessoas terem a experiência de estar em uma sala, como telões e poltronas. Dessa forma, o povo mais humilde poderá conhecer a magia da sétima arte e seu poder de fazer sonhar, assim como a Velha Totônia fez com o menino que viria a ser o maior escritor paraibano no futuro.