ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 13/11/2019

Em 1808, Dom João VI, após a invasão napoleônica, buscou refúgio para sua família nas terras coloniais brasileiras. Nesse sentido, buscou-se investir na criação de teatros, cinemas e bibliotecas para estimular o acesso à cultura e ao entretenimento. No entanto, a sociedade contemporânea brasileira se mostra incapaz de experimentar os avanços promovidos por D. João na medida em que o acesso ao cinema ainda enfrenta desafios pela população. Dessa forma, para que haja a democratização desse meio há de se combater a histórica desigualdade social e a alienação dos indivíduos.

Em primeiro plano, é válido destacar o abismo social presente na realidade brasileira. Nesse contexto, em 1850, Dom Pedro II colocou em prática a Lei de Terras, a qual restringia o acesso às terras devolutas - propriedades do Estado - à parcela da população com alto poder aquisitivo. Ocorre que, passados mais de 200 anos, ainda é possível perceber os reflexos da Lei de Terras, considerando que o acesso à cultura é determinado, em grande parte do país, pelo poder econômico, já que regiões como o Nordeste são marcadas pela exclusão e não contam com infraestrutura e investimentos. Dessa forma, enquanto a desigualdade socioeconômica for regra, o acesso ao cinema será a exceção.

De outra parte, os indivíduos não são estimulados a consumirem produtos que desenvolvam o senso crítico. Sob esse viés, Zymunt Bauman propôs a ideia de Espetacularização da Cultura, a qual mostra que os indivíduos contemporâneos preferem atrações grandiosas e vazias de criticidade. No entanto, enquanto o Estado não combater a ideia de Bauman e não incentivar, por exemplo, o consumo de obras cinematográficas - como “12 anos de escravidão” - a população será impossibilitada de exercer seu poder reflexivo e a democratização do acesso ao cinema se fará cada vez mais distante no Brasil.

Fica claro, portanto, que medidas devem ser tomadas para atenuar o problema abordado. Urge que a Receita Federal, como órgão responsável pela distribuição das arrecadações, destine maior verba para a construção e manutenção de cinemas nas regiões mais prejudicadas, por meio de análises feitas pelos governos estaduais, para que, assim, toda a população tenha acesso às produções cinematográficas. Além disso, os indivíduos devem promover debates, por meio das mídias sociais, visando desconstruir a cultura da alienação e estimular a reflexão acerca do acesso à cultura. Somente assim, os investimentos feitos por Dom João VI poderão ser usufruídos democraticamente.