ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 14/11/2019

No século XVIII,o iluminista Voltaire,em ‘‘Cândido ou o Otimismo’’,promovera profunda ruptura com a filosofia romântica de Leibniz ao ironizar a compreensão de que se vivia no melhor dos mundos possíveis.Contemporaneamente,o complexo paradigma de como democratizar o acesso ao cinema no Brasil parece definitivamente legitimar as ideias protagonizadas pelo pensador francês.Nesse contexto,tal problemática constrói-se como subproduto da negligência estatal e inércia social.

Em uma primeira perspectiva,as dificuldades de equidade em relação à cultura cinematográfica na sociedade brasileira erguem-se como uma realidade em decorrência da inabilidade governamental.Isso porque o Estado secundariza causas sociais que não se mostrem úteis ao fisiologismo de sua agenda,visto que,acastelado pelos seus governantes,ocorre a priorização de gastos em benefício próprio,como salários exorbitantes,em detrimento de investimentos na redução de desigualdades sociais relacionadas ao acesso ao cinema,haja vista a frequente ausência de infraestrutura,segurança e condições propícias ao desenvolvimento de atividades culturais nas periferias e locais distantes de centros urbanos.Como consequência,os direitos sociais,relativos ao amplo acesso à cultura e presentes na Constituição Federal de 1988,são deslegitimados.

Ademais,convém ressaltar que os entraves da igualdade de oportunidades na acessibilidade ao cinema brasileiro arquitetam-se como expressão da inação social.Esse quadro sociológico instaura-se devido ao resultado de expressiva parcela populacional omitir-se diante de problemas sociais,já que considera a inércia preferível a mobilizar-se e pressionar o Governo por mudanças,o que contribui para a manutenção de uma máquina pública inerte quanto à causa.Essa afirmativa possui estreito relacionamento com a premissa defendida por Félix Guattari e Gilles Deleuze,filósofos franceses que refletem em ‘‘Mil Platôs’’,o fato da contemporaneidade produzir corpos dóceis,com o intuito de torná-los apáticos e,por conseguinte,compactuarem com a realidade existente.Desse modo,a coletividade não se manifesta a favor da população negligenciada culturalmente,e essa minoria permanece excluída.

Portanto,a displicência estatal e a compactuação social instauram a realidade dos desafios da construção de um cinema democratizado no Brasil.Assim,o Poder Executivo Federal,sob a forma de Ministério da Educação e Cultura,deve promover políticas de inclusão social,por meio de incentivos a empresas privadas que,em contrapartida,invistam na ampliação do cinema em regiões distantes,as quais funcionem em período integral.Concomitantemente,o Governo também deve investir na conscientização social,por intermédio de propagandas publicitárias em horários nobres.Dessa forma,os cidadãos seriam dignificados e a filosofia romântica de Leibniz poderia,enfim,tornar-se realidade.