ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 29/06/2020

Cidade de Deus. Vidas Secas. Central do Brasil. Três obras cinematográficas brasileiras com um grande paradoxo em comum, o povo representado nessas histórias não é o mesmo povo que usufrui da produção. Apesar de o acesso à cultura ser um direito assegurado constitucionalmente a todo cidadão brasileiro, a teoria diverge da prática e não há uma democratização do acesso ao cinema no país. Dessa forma, há uma grande necessidade de alteração desse cenário para garantir que o cinema seja um bem culturalmente acessível à população.

Em primeiro lugar, verifica-se que a principal causa do acesso ao cinema no Brasil não ser democratizado é a nítida desigualdade social existente no país. Com as mudanças nos perfis sociais das cidades pós urbanização, houve uma crescente onda de violência que, graças à cultura do medo, fez o cinema ser levado a locais mais seguros, abandonando as ruas para se adaptar aos shoppings. Porém, a medida que isso ocorreu, houve um processo de gentrificação desse espaço cultural, uma vez que, ao melhorar sua infraestrutura, o serviço encareceu e selecionou, de forma segregacionista, quem frequentaria seu novo espaço.

Por outro lado, cabe ressaltar a importância da arte, como o cinema, no cotidiano das pessoas. As obras cinematográficas são capazes de apresentar realidades distintas e que, muitas vezes, são desconhecidas pela grande massa populacional, despertando um grande senso de compreensão e empatia. Além disso, existe a grande importância da representatividade das minorias e grupos que são excluídos pela sociedade. Um grande exemplo disso é explicitado no filme “Estrelas além do tempo”, no qual três mulheres negras são protagonistas da história, em meio à Guerra Fria em um país com políticas segregacionistas, e são capazes solucionar a trama por conta própria. Dessa forma, é possível que os filmes venham a despertar um empoderamento feminino, da população negra e, também, de outros grupos socialmente excluídos.

Logo, não há como negar que é fundamental que o acesso ao cinema se torne democrático, assegurando um direito constitucional da população. Assim, cabe ao Estado realizar maiores investimentos financeiros na área cultural. Isso pode ser realizado pela criação de projetos, em parceria com as escolas e com a Agência Nacional de Cinema, a exemplo do “Cinema para todos”, que ocorre no Rio de Janeiro, em que são destinadas sessões específicas de cinema para alunos da rede pública, com vale-ingressos gratuitos, para que todos desfrutem dos benefícios da arte. Dessa forma, por fim, será possível assegurar que as obras não mais possuam um paradoxo e seja possível que o povo presente nas histórias não só as protagonizem, mas as aproveitem também.