ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 27/03/2020
No universo ficcional da série da Netflix “Peaky Blinders”, é, no primeiro episódio, evidenciado o poder econômico e moral da família “Shelby”, cujo primogênito, Arthur Shelby, entra sozinho, sem entraves, no cinema local. Fora da ficção, observa-se hoje, no Brasil, o cinema como um espaço extremamente direcionado, assim como para Arthur, e não democrático, panorama esse tocante à mercantilização do lazer, a qual culmina uma questão circunscrita pela esfera econômica. Assim, o Governo, cuja conjuntura deve ser dissolvida, deve agir imediatamente perante tal.
Cabe ressaltar, em primeiro plano, que a mercantilização do cinema já foi trabalhada por Adorno e Horkheimer na “Indústria Cultural”. Segundo essa teoria dos filósofos de Frankfurt, a cultura como um todo, o que inclui os cinemas, é tratada como um simples produto dentro do viés capitalista atual. Isso se mostra verdade, à medida que apenas 12% das salas de cinema, de acordo com o IBGE em 2019, são públicas. Desse modo, isso corrobora um problema maior que afeta o acesso ao lazer dos indivíduos no país.
Por conseguinte, enquanto esse panorama capitalista perdurar, confere-se o cinema como um espaço direcionado mediante a renda do consumidor. Já que o indivíduo está, nesse cenário, na posição de comprador, o produto cultural que lhes é ofertado depende do poder aquisitivo do cidadão, o que confronta as ideias de Zygmunt Bauman referentes às formas de escape da “Modernidade Líquida”, nome, também, de sua obra. Em suma, embora o lazer, para Bauman, seja uma forma, teoricamente democrática, de divergir temporariamente do atual mundo volátil e instável, o cinema, no Brasil, visto que a maior parte da população não atende aos requisitos econômicos desse espaço, torna-se um mecanismo segregador e cada vez menos acessível - o que urge mudanças.
Infere-se, portanto, visto a tempestividade da problemática, que compete ao Governo, por meio de verbas governamentais, tornar economicamente acessíveis os cinemas já existentes, além de cogitar a construção de salas de cinema públicas sem fins lucrativos, a fim de democratizar o acesso a esses espaços e eliminar os estigmas socioeconômicos pertinentes à tais no país. Somente assim, observar-se-ia uma sociedade que alcança o escape preconizado por Bauman e que diverge da “Indústria Cultural”, de forma a moldar indivíduos mais eruditos, sensíveis à arte e que poderiam, alegoricamente, juntarem-se à Arthur Shelby no cinema.