ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 28/03/2020
No universo ficcional da série da Netflix “Peaky Blinders”, é, no primeiro episódio, evidenciado o caráter hegemônico da família “Shelby” em Birmingham, na Inglaterra do século XX, por meio do primogênito Arthur, o qual entra sozinho, sem entraves, no cinema local. Assim como para Arthur, fora da ficção, nota-se hoje o cinema como um espaço extremamente direcionado no Brasil, panorama tocante à mercantilização do lazer, a qual culmina em uma questão circunscrita pela esfera econômica do país. Nesse contexto, o Governo, cuja conjuntura deve ser dissolvida, deve agir imediatamente perante tal.
Cabe ressaltar, em primeiro plano, que a mercantilização do cinema já foi trabalhada por Theodor Adorno e Horkheimer na “Indústria Cultural”. Segundo essa teoria dos filósofos de Frankfurt, toda produção que abrange a cultura e o lazer, assim como o cinema, é, desde a modernidade, posta em perspectivas mercantilistas e utilitaristas, de forma a transformá-la em produtos dentro do viés capitalista atual. Isso se mostra verídico, à medida que apenas 12% das salas de cinema, de acordo com o IBGE em 2019, são públicas e configuram acesso pleno e democrático. Destarte, esse quadro corrobora um impasse maior, que afeta o acesso ao lazer dos indivíduos no país.
Por conseguinte, enquanto esse panorama capitalista perdurar, confere-se ao cinema um caráter direcionado mediante a renda do consumidor. Nesse sentido, visto que o indivíduo, nesse cenário, está na posição de comprador, o produto cultural que lhes é ofertado depende unicamente do poder aquisitivo do cidadão, o que confronta a ideia maior de que o lazer deve ser acessível a todos e corrobora um viés elitista ao cinema. Em suma, como esse abrange somente as classes mais abastadas, a maior parte dos brasileiros, que se encontram em posição econômica desfavorecida, não possuem acesso ao cinema no Brasil, o que configura esse não como um espaço de pertencimento, mas como um ambiente segregador e inacessível, o que urge mudanças.
Infere-se, portanto, visto a tempestividade da problemática, que compete ao Governo, por meio de verbas governamentais, tornar economicamente acessíveis os cinemas já existentes - seja comprando ou sustentando-os - e cogitar a construção de mais salas de cinema públicas, de forma a construir ambientes de lazer democráticos que eliminem estigmas econômicos atrelados à cultura no Brasil. Dessa forma, visando eliminar o cinema das prateleiras capitalistas e transformá-lo em um lugar que transpassa o sentimento de pertencimento a todas as classes, observar-se-ia uma sociedade com acesso pleno ao lazer, que diverge da “Indústria Cultural” e que pode, de maneira anacrônica e alegórica, juntar-se à Arthur Shelby no cinema de Birmingham do século XX.