ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 29/04/2020
“Eu nunca sonhei com você / Nunca fui ao cinema (…)” . Nesse trecho da música “Lígia”, Tom Jobim oferece uma leitura, aparte do romance da canção, acerca do cenário cultural da década de 70, mostrando não só a presença e importância do cinema, mas também a falta de acesso pleno a tal. Nesse contexto, é notório que a democratização do acesso ao cinema, no Brasil, é um anseio social de longa data, o qual urge maior análise. Dessarte, aponta-se a mercantilização da “sétima arte” - o cinema - como a principal razão para tal anseio, a qual incita uma sociedade extremamente tecnicista.
Em primeiro plano, afirma-se que a transformação do cinema em um produto está fortemente atrelada à óptica dos alemães Adorno e Horkheimer. Esses pensadores da escola de Frankfurt, por meio da “Indústria Cultural”, preconizaram que, hoje, sob o prisma capitalista ubíquo, as manifestações culturais são meros produtos a espera de consumidores condizentes a seus preços. No entanto, como, segundo o IBGE, em 2018, aproximadamente 50% dos trabalhadores brasileiros recebiam menos que um salário mínimo, é evidente que esses consumidores constituem uma parcela abastada da população, a qual dispõe tanto de tempo, quanto de recursos para contemplar a “sétima arte”. Logo, infere-se que grande parte do arcabouço socioeconômico brasileiro é segregada, elitizando esse produto cultural e a corroborar a necessidade de intervir visando à democratização do acesso a tal.
Por conseguinte, enquanto esse panorama perdura, àqueles segregados, é imposta uma realidade criticada por Aristóteles: uma vivência que ofusca a cultura. Conforme ele e sua “Essência do ser”, todos deveriam buscar atingir um estado de plenitude racional e emocional, possível apenas mediante a educação e, sobretudo, a cultura. Conquanto essa essência aristotélica seja concebível, ela é confrontada pela situação de marginalização supracitada, na medida em que grande parte dos indivíduos não gozam dos meios para sequer frequentar o cinema no Brasil. Dessa forma, essa leitura social é consoante à de Silvio Almeida em “Racismo Estrutural”, livro no qual ele denuncia os estigmas inerentes a pobres e negros da nação, visto que a elitização do cinema reivindica ora a qualidade de vida, ora a “Essência do ser” dos marginalizados.
Portanto, visto a intempestividade da problemática, compreende-se a trivialidade em dissolver a natureza mercantil do cinema no Brasil para ampliar o acesso a tal. Para tanto, compete ao Ministério da Cidadania, enquanto instância deliberativa máxima sob questões culturais no país, o dever de criar um programa, por meio de políticas públicas, que promova a transmissão de obras cinematográficas gratuitamente à população de maneira atávica, a fim de possibilitar o acesso geral à contemplação desse, antes, produto cultural. Destarte, observar-se-ia uma sociedade dissonante da canção de Jobim.