ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 14/07/2020

No livro “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, Macabéa, uma jovem nordestina, sonha em ser atriz de cinema e é inferiorizada por tal condição. No entanto, grande parcela da sociedade brasileira não deseja algo tão grandioso, mas sim poder ter acesso regular ao cinema. Relacionado a isto, está a falta de políticas públicas que busquem a democratização e de atuações sociais que diminuam a disparidade cultural entre a população desde a infância.

Em primeira análise, vale ressaltar que a finalidade do cinema fora distorcida pelo meio capitalista direcionado apenas àqueles com poder aquisitivo. Dessa forma, consoante o filósofo clássico Aristóteles, o que fora criado como mecanismo de democracia transformou-se em um instrumento de opressão, cabendo ao Estado a restauração do objetivo democrático deste mecanismo. Em contrapartida, não é possível identificar a efetivação de tal restauração, visto que a ausência de políticas públicas demonstra a não problematização da temática por parte do poder estatal.

Outrossim, a inacessibilidade ao cinema traz consigo a disparidade cultural que prejudica diretamente a formação do poder social de cada cidadão. Apesar de garantida como direito básico pela Constituição Federal de 1988, a democracia cultural, incluindo o viés cinematográfico, não é realidade dentro da sociedade brasileira, o que pode acarretar na violência simbólica definida pelo filósofo contemporâneo Pierre Bourdieu em sua obra “Violência Simbólica”, que é praticada a partir do acúmulo de conhecimento maior por alguns da sociedade, inferiorizando os demais, colocados como “Macabéas” da vida real. Logo, o cinema, vertente do lazer garantido constitucionalmente a todos, é pré-requisito da democracia.

Portanto, entende-se que faz-se necessária uma intervenção estatal e social para a garantia da democratização do cinema no país. Dessarte, cabe ao Ministério da Cidadania, em parceria com a Secretária da Cultura, preencher a lacuna de políticas públicas culturais por meio de um projeto chamado “Cinema Móvel”, que consiste em levar o cinema feito por telões até as áreas de pouco acesso a essa arte e fazer exibições em praças e centros de movimentação urbana, para que a cinematografia seja parte da história de todos. Também é dever das escolas, em conjunto com os cinemas locais, proporcionar repertório cultural às crianças e aos adolescentes por intermédio de passeios escolares que resultem em sessões de filmes educativos e que auxiliem na composição cultural de todos - haja visto que a educação e a cultura são complementares - para que, em contato com outros grupos sociais, estes não sofram a violência simbólica descrita por Bourdieu.