ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 01/09/2020

O livro “O conto da Aia” relata a vida da personagem Offred, a qual foi submetida a um regime de escravidão por um governo de base teocrática e centralizadora. No romance, a protagonista é vista como uma “máquina de procriação”, sem qualquer forma de direito à educação ou à leitura. Trazendo para a atualidade, é visto que a não democratização do acesso aos cinemas no Brasil tem implicações similares as que foram apresentadas no livro quando os seus espaços físicos não são acessíveis às populações interioranas e às portadoras de necessidades especiais.

Em princípio, cabe analisar a elitização da arte cinematográfica sob a perspectiva de Hanna Arendt. Para a escritora, a produção cinéfila hitlerista era caracterizada pela promoção da raça ariana em detrimento da chamada “arte degenerada”, pertencente à população judaica e eslava. Nessa perspectiva, a grande concentração de cinemas nos aglomerados urbanos brasileiros, especialmente em shopping centers, segue a lógica capitalista de produção, cuja égide se afasta do princípio de valorização cultural e, portanto, de sua democratização. Desse modo, os cinemas não estão sendo veículos de cultura, e sim de interesses excludentes, como na Alemanha nazista.

Em segundo plano, é oportuno relacionar democratização com acessibilidade. Observando essa perspectiva, a historicidade humana é cruel em demonstrar como a deficiência de ordem física era rejeitada, ocorrendo, por vezes, a morte do indivíduo nos seus primeiros dias de vida, como ocorreu em Esparta. Entretanto, a democratização da arte cinematográfica deve abranger as diversas formas de visualização de seu conteúdo, não priorizando apenas a visão e a audição, mas o demais sentidos como forma de garantir a acessibilidade a cegos e surdos, por exemplo. Dessa maneira, o princípio de isonomia será resguardado.

Portanto, medidas são necessárias para solucionar o impasse. Para tanto, é necessária a união entre Estado e universidades públicas, na criação de salas de cinema em cidades médias e pequenas mais carentes, como forma de garantir o acesso constitucional ao lazer. Ademais, é oportuno que o Governo crie incentivos fiscais às empresas que adaptarem as salas de cinema aplicando tecnologias multissensoriais para a integração de cegos e surdos, com o intuito de garantir o princípio isonômico. Assim, é possível retificar o clima de desigualdades gerado pela lógica capitalista e livrar a sociedade da situação das Aias, representadas no romance distópico inicialmente apresentado.