ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 01/09/2020
O “arbitrário cultural”, metáfora criada por Pierre Bourdieu, para descrever a forma como uma cultura se impõe sobre a outra, é refletida na atualidade através do cinema. Sob essa óptica, há demasiados problemas que impedem uma efetiva democratização dessa ferramenta, que vai além de simplesmente criar novos cinemas nas áreas periféricas. A periferia quer, de fato, uma igualdade cultural nesse meio cinematográfico, ela quer ter a sua realidade também representada. Primeiramente, são poucos os filmes, como o icônico “Cidade de Deus”, que retratam o brasileiro em sua forma mais fiel, pobre, periférico e marginalizado, o que contrasta fortemente com os filmes que são reproduzidos pelo cinema na atualidade. Nesse contexto, basta comparecer em um cinema qualquer do país para notar a disparidade cultural presente nesse meio uma vez que, os filmes em cartazes certamente serão estrangeiros, e quando nacionais passarão longe de ter um periférico como protagonista. Logo, nota-se uma desigualdade social mascarada de cultura uma vez que apenas uma parte da sociedade (a privilegiada) se identifica com os “roteiros” dos filmes que se passam nos cinemas e por esse motivo, a periferia roga por igualdade cultural e se sente excluída por não ser representada nessa categoria. Para além disso, a maior parte dos filmes produzidos servem como ferramentas para alimentar o próprio ego da sociedade privilegiada (a burguesia). Nesse contexto, os famigerados roteiros nacionais que se passam, geralmente, em praias, de preferência do Rio de Janeiro ou São Paulo em que seus personagens são da alta classe envoltos por problemas vis, como é percebido no clichê “O Homem Perfeito”, são supérfluos e não condizem com a realidade de muitos periféricos que se sentem relegados com os poucos filmes que retratam a sua realidade. Logo, analisando o exposto, nota-se um verdadeiro artífice em vigor que mascara a mais absurda forma de dominação que, segundo Bourdieu, é o ato de uma cultura se impor sobre a outra, e essa imposição, nesse caso, ocorre nas grandes telas dos cinemas, o que dificulta uma efetiva democratização dessa ferramenta. Portanto, para solucionar os entraves desse defeito social, os estúdios cinematográficos brasileiros devem dar mais espaço aos roteiros que retratam fielmente o país, e por meio de uma seleção mais cautelosa priorizar os famosos “baseados em fatos” voltados para as inúmeras histórias da realidade periférica brasileira, para que assim, possa se descontruir essa imposição cinematográfica cultural e estrutural que há nos cinemas atuais e democratizar essa ferramenta de dentro para fora da telas.