ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 09/09/2020

Para o sociólogo francês Pierre Bordieu, o acesso facilitado à cultura por parte das elites econômicas suscita uma distribuição desigual de capital cultural, a familiaridade com as manifestações artísticas consideradas mais eruditas. Em conformidade com a visão de Bordieu, verifica-se, no Brasil contemporâneo, que os cinemas reforçam essa desigualdade simbólica, posto que não podem ser considerados democráticos. Isso ocorre pois são cobrados altos preços para os ingressos de cinema, o que impõe uma mentalidade elitista em relação ao acesso a esses estabelecimentos.

Primeiramente, vale ressaltar que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, o acesso à cultura é um direito de todos. Entretanto, isso não ocorre na prática, uma vez que os valores cobrados para o acesso às salas de exibição de filmes fazem com que a ida regular a esses lugares seja uma realidade apenas para uma minoria abastada. Prova disso são os dados recentemente divulgados no site “Meio e Mensagem”, os quais revelam que somente 17% da população brasileira frequente o cinema. Assim, é estabelecida uma conjuntura problemática, na qual a cultura só se encontra disponível para aqueles capazes de pagar altos preços.

Consequentemente, dissemina-se a concepção de que espaços culturais como os cinemas seriam reservados às elites. Nesse sentido, segundo o sociólogo Karl Marx, as relações econômicas de uma sociedade, a infraestrutura, determinam suas ideologias, a superestrutura. Sob tal ótica, é evidente que a limitação econômica do acesso ao cinema para as classes baixas suscita, no imaginário popular, a ideia de que elas não pertenceriam a esses locais. Desse modo, o sentimento de não pertencimento reforça a desigualdade imposta economicamente.

Portanto, tornam-se necessárias medidas que dissolvam essa conjuntura e promovam a efetiva democratização do acesso ao cinema no Brasil. Nessa missão, compete ao Executivo, a nível municipal, iniciar a construção de cinemas ao ar-livre, sem cobranças monetárias, por meio da emissão de verbas municipais, com o objetivo de por fim à limitação econômica da entrada nesses locais. Dessa maneira, o capital cultural poderá ser distribuído igualmente, e a mentalidade elitista que permeia a sociedade brasileira será ultrapassada.