ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 11/09/2020
Na obra Utopia, do escritor Thomas More, encontra-se o detalhamento de uma ilha, constituída por cinquenta e quadro cidades, que funcionava de forma perfeita, e, assim, os utopianos, como eram chamados os habitantes desse local, desfrutavam de um ambiente harmônico. No entanto, ao analisar a falta de democratização da cultura no Brasil, principalmente, em relação ao cinema, percebe-se um cenário que não dialoga com a civilização ideal de More. Nessa perspectiva, nota-se que tal realidade é fruto de uma quadro de desigualdade e do individualismo que permeia no tecido social.
Em primeiro lugar, conforme o filósofo brasileiro, Henrique de Lima, a modernidade se assenta no enigma de uma sociedade tão avançada em suas razões teóricas e, por sua vez, tão primitiva em suas razões éticas. Sob tal prisma, observa-se a questão do acesso ao cinema no país, uma vez que apesar de a Constituição Federal afirmar que todos têm o direito de desfrutar dos bens culturais presentes na nação, a realidade revela um quadro de desigualdade. Prova disso é a concentração das salas de cinema nas regiões de maior economia. Desse modo, essa conjuntura reverbera o pensamento do escritor “maldito”, Lima Barreto, em relação ao Brasil possuir dois mundos, o dos privilegiados e o dos deserdados.
Além disso, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman,- “a sociedade atual transferiu a ideia de progresso como melhoria compartilhada para sobrevivência do eu”. Nesse viés, o sentimento individualista que tecei-a o comportamento do homem hodierno faz com que esse indivíduo ignore os problemas sociais, pois a sua satisfação está centrada si mesmo. Isso é exemplificado, intuitivamente, por aqueles que desfrutam do acesso ao cinema, dado que, majoritariamente, são indiferentes com realidade da falta de democratização desse bem. Consoante a isso, um corpo social que ecoa o narcisismo impossibilita a construção de uma ambiente mais igualitário.
Logo, é mister que o Estado mude esse quadro. Para tanto, cabe a esse órgão traçar políticas públicas que possibilitem o acesso de toda a população ao cinema. Dessa forma, o governo mediante incentivos fiscais, estimulará as redes de cinema a construírem salas nas regiões que carecem desse bem cultura, a fim de possibilitar um contexto que legitima a igualdade de direitos no tecido social. Outrossim, cabe as escolas, por meio de palestras realizadas por sociólogos, discutir sobre como o individualismo dificulta a formação de uma civilização, a qual desfruta de um ambiente saudável, com propósito de incentivar o altruísmo nas relações interpessoais do homem. Em vista disso, um cenário que busca pela democratização ecoará a população utopiana de Thomas More.