ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 30/12/2020
A Constituição federal, promulgada em 1988, determina que é inerente a todos os seres humanos, independentemente de seu poder aquisitivo, o acesso ao lazer. Fora do âmbito teórico, no entanto, há uma parcela considerável de pessoas que não possuem acesso a todas as formas de entretenimento, dentre elas o cinema, fato resse resultante de uma série de determinantes, como a centralização elitizada da exposição dessa arte e o próprio desinteresse da sociedade.
Em primeira análise, em sua obra “A República”, o filósofo Platão determina que o ato de governar significa proporcionar o bem-estar máximo de uma população. Todavia, no que tange a assegurar o acesso a longa-metragens para todos, o Estado ainda é falho, visto que a reestruturação cinematográfica sofrida no Brasil, decorrente do advento das novas tecnologias do século XXI, pelo seu âmbito puramente comercial, se concentrou, principalmente, nas regiões de maiores lastros habitacionais e financeiros. Nessa lógica, diversas áreas periféricas ou cidades de pequeno porte foram prejudicadas, uma vez que há, em alguns casos, centenas de quilômetros de distância entre um indivíduo e a sessão de exibição mais próxima. Dessa forma, a grande massa não possui sequer a oportunidade de assistir a um filme em estreia, fato esse provado pela pesquisa do site “Meio e Mensagem”, a qual demonstra que cerca de apenas um quinto do país frequenta o cinema.
Concomitante a isso, o desinteresse da própria sociedade em financiar a sétima arte da maneira convencional é um problema evidente. Nesse sentido, em seu livro “E Assim Falou Zaratustra”, o pensador Nietzsche expõe que a cultura e as tradições, em algum momento, entrarão em decadência e serão substituídas por novas. Fora das conjecturas, esse pensamento demonstra, com precisão, a situação brasileira, na qual uma grande faixa da população, em decorrência do custo e pela praticidade de apreciar filmes de sua própria residência por serviços de streaming, desiste de presenciar os espetáculos nas telonas, além de incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. Tal situação, infelizmente, abaixa a demanda pelo produto, e, por conseguinte, eleva ainda mais o preço do ingresso, formando um ciclo que atrapalha, consideravelmente, a democratização desse meio.
Faz-se necessário, destarte, a reversão desse quadro crítico ao qual o país se encontra. Assim, cabe ao Poder Legislativo elaborar um conjunto de leis que, por meio de incentivos fiscais, estimulem empresas a construir centros de exibição em locais em que eles não existam, de contigente proporcional à população local. O Governo deve, também, promover exibições gratuitas de filmes clássicos semanalmente, com ingressos bancados pelo prórpio, para que a infraestrutura e ideologia acerca do assunto evoluam e, enfim, o ideal proposto pela Constituição esteja um pouco mais tangível.