ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 28/05/2021

A obra cinematográfica brasileira “Bacurau” teve grande relevância política e social ao retratar a cultura de resistência nordestina e o significado de ser brasileiro perante o mundo. Diante disso, é evidente o papel do cinema no registro da memória de um povo e na difusão de diferentes realidades, o que favorece o desenvolvimento de aspectos como a tolerância e a alteridade nos espectadores. Apesar de tantos benefícios, o cinema não é igualmente acessível a todos no Brasil. Por isso,  é imprescindível combater os obstáculos geográficos e socioeconômicos que impedem a democratização desses espaços.

É preciso reconhecer, inicialmente, que as cidades brasileiras foram historicamente construídas com a ocupação dos centros urbanos pelos grandes detentores de poder econômico e, consequentemente, os espaços culturais e de lazer eram direcionados a esse público. Inevitavelmente, as salas de cinema seguiram o mesmo padrão e, até hoje, são ambientes elitizados e que refletem a segregação social presente na sociedade brasileira, evidenciada pelo sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, no livro “Raízes do Brasil”. Nesse sentido, a população periférica é privada de acessar esses espaços, que são intimidantes socialmente e inalcançáveis financeiramente, o que viola os seus direitos constitucionais à cultura.

Nessa perspectiva, a desigualdade na distribuição de estabelecimentos de cinema e o alto custo para frequentá-los são fatores que desfavorecem o alcance igualitário de toda a população. De fato, a centralização desses locais não se limitam às cidades, sendo também uma questão regional.  Segundo a Agência Nacional de Cinema, o estado de São Paulo possui mais que o triplo de salas de cinema em relação às demais regiões do Brasil. Com isso, conclui-se que o impecilho geográfico é mais um dilema das populações periféricas, que privilegia somente os habitantes das regiões mais desenvolvidas do país. Além disso, é inegável que os preços exorbitantes das sessões de cinema restrigem ainda mais o público, impossibilitando que o acesso à sétima arte seja universal na sociedade brasileira.

Diante do que foi exposto, é primordial que o Ministério da Cultura, em uma parceria público-privada, promova a ampliação do vale-cultura, a fim de combater as disparidades econômicas que dificultam o acesso ao cinema pela população mais vulnerável. Esse investimento poderá ser revertido em isenção fiscal para as empresas que contribuírem com essa ação social. Ademais, é essencial que esse agente governamental também viabilize, por meio da verba privada, a realização de festivais de cinema gratuitos em localidades periféricas e rurais, que são as mais prejudicadas pelo quesito socioespacial. Assim, toda a população será igualmente contemplada pelos benefícios dessa arte.