ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 06/09/2021

Theodor Adorno, filósofo alemão, estabeleceu o papel do cinema no contexto da indústria cultural como sendo a extensão da mecanização do sistema capitalista. Nesse sentido, a massificação das obras cinematográficas causou a perda do seu teor artístico, ressignificando-as como um bem de consumo e, também, um veículo de propagação de ideologias que padronizam os expectadores. Sendo assim, urge a necessidade de combater a lógica pautada primeiramente na lucratividade e desenvolver a democratização social e espacial do cinema, reavendo sua importância histórica.

Primordialmente, em 2004, uma catraca foi colocada em cima de um pedestal no centro São Paulo e a placa abaixo do objeto informava: ‘‘monumento à catraca invisível’’. No que tange ao acesso ao cinema no Brasil, as catracas sociais e econômicas restringem o público consumidor nos espaços exibidores dos filmes. A exemplo desse controle invisível, a desigualdade espacial na distribuição de shoppings no país atinge a concentração de 55% das unidades apenas na região Sudeste, enquanto no outro polo, a região Norte contém apenas 3%, de acordo com a ABRASCE. Além disso, mesmo nos locais mais abundantes em número de salas, o valor dos ingressos torna incessível e distante o acesso para moradores de bairros mais pobres e periféricos.

Outrossim, instituições estatais como a Ancine e a Cinemateca Brasileira apresentam riquíssimo conteúdo cultural e emancipador, apesar de sofrerem com o sucateamento e o descaso do Governo Federal nos últimos anos. Dessa forma, os filmes nacionais, muitas vezes de pequenos produtores independentes, promovem debates acerca de temas importantes como a questão agrária e indígena no Brasil, exemplificado por ‘‘Serras da Desordem’’ e a herança secular da desigualdade de classes na obra “Que horas ela volta?’’, além de diversos outros. Portanto, tais produções contrariam a lógica da massificação estudada por Adorno, pois estimulam o senso crítico e enriquecem a bagagem histórica e sociológica da população, por isso, é essencial a democratização desse conteúdo por vias estatais, sem fins mercadológicos.

Diante do exposto, fica evidente o dever do Governo Federal, alinhado ao Ministério da Cultura, de garantir o repasse de verbas suficientes para as produções cinematográficas brasileiras, fomentando as agências responsáveis pelo setor do cinema, bem como investir na infraestrutura necessária para a exibição das obras nos bairros periféricos e menos privilegiados, com mais salas e bem distribuídas a preços acessíveis. Dessa maneira, será garantido o direito constitucional de acesso à cultura, favorecendo a cidadania da nação, ao contrário da lógica industrial capitalista de acumulação, que privilegia as classes altas e determinadas regiões do país para acessarem tais campos de expressão.