ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 21/08/2021

A gênese do aparelho reprodutor de filmes – metonimicamente chamado de “cinema” – foi um marco segregacionista, uma vez que o próprio inventor acreditava que a única destinação possível de sua criação seria científica. Entretanto, mais de um século depois, representa um enorme desafio a democratização do acesso ao cinema no Brasil, uma vez que as salas de exibição não atendem de forma igualitária a toda população. Dessa forma, há de se combater a reprodução massificada de temáticas, comandadas por grandes grupos capitalistas, além da distribuição excludente dos cinemas.

Nesse cenário, é controverso o fato da cultura, que nasceu para ser expressão plural da sociedade, ser liderada pelos mais ricos. Sobre isso, Theodor Adorno desenvolveu o conceito de “Indústria Cultural”: a arte pode ser manipulada e vendida de forma sistemática, a fim de atender a grandes conglomerados empresariais. Salienta-se, então, que os mais pobres são colocados à margem do processo cultural, já que não possuem recursos suficientes para custearem os ingressos de cinemas e, quando os têm, são vítimas da massificação cultural imposta pelos que comandam o corporativismo cinematográfico. Destarte, há de se distribuir democraticamente os recursos relacionados à sétima arte, àqueles que inspiram majoritariamente as criações.

Outrossim, a distribuição das grandes salas de exibição deu-se de forma desigual no território brasileiro, o que traz consequências negativas ainda hoje. Nesse viés, desde o governo Juscelino Kubitschek, o processo de ocupação de grandes empresas estrangeiras ocorreu de forma desproporcional ao longo do Sul e Sudeste, em detrimento das regiões Norte e Nordeste. Consoante a esse fato, o cinema acompanhou essa trajetória e, na atualidade, o número de salas de filmes no Brasil representa dois terços do valor de 1975, segundo dados da Agência Nacional de Cinema (ANCINE). Desse modo, é lamentável e incoerente que, mais de cinquenta anos depois, inexistam ações que multipliquem as salas de cinema no país no lugar que que diminuam.

É urgente, portanto, que a ANCINE, em parceria com empresas do ramo cinematográfico, distribua salas de exibição de filmes ao longo do Norte e Nordeste, de forma prioritária, estabelecendo sessões de produções brasileiras: ação que valoriza fortemente a cultura nacional. Paralelamente, deve-se distribuir gratuitamente ingressos, para que a população mais pobre tenha acesso às criações locais. Por conseguinte, tais ações têm a finalidade de minimizar a ação da indústria cultural, como também redemocratizar a sétima arte ao longo do território verde-amarelo e, assim, romper com a marca segregacionista que deu origem ao aparelho sem o qual a temática do cinema não faria qualquer sentido.