ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 29/08/2021
Em sua obra “O Cidadão de Papel”, o autor brasileiro Gilberto Dimenstein disserta sobre a ineficácia das leis presentes em documentos oficiais, de modo que as garantias jurídicas limitam-se à teoria. Nesse sentido, pode-se afirmar que a desigualdade no acesso ao cinema no Brasil demonstra a validade da análise de Dimenstein, haja vista que parte expressiva dos moradores de periferias urbanas e de regiões interioranas do país é privada dessa forma de lazer, embora o acesso a meios de entretenimento seja um direito de todos os cidadãos, conforme atesta a Constituição Federal de 1988. Diante disso, identifica-se a negligência estatal e a alienação da população como fatores que reforçam a permanência desse nefasto cenário.
De início, é pertinente destacar que a falta de eficiência do Estado na disponibilização do acesso ao cinema a indivíduos de todas as regiões do país prejudica a democratização do consumo desse instrumento de lazer. Nesse contexto , o célebre filósofo John Locke descreve o conceito de Contrato Social, o qual se refere ao papel dos governantes em defender as necessidades daqueles que são por eles representados. No entanto, é evidente a quebra desse pacto no Brasil, uma vez que não são promovidas ações que permitam a redistribuição espacial de ambientes exibidores de produções cinematográficas no território.
Ademais, a carência de reflexão acerca de tal circunstância contribui para que a condição de subcidadania dos grupos populacionais que não conseguem frequentar salas de cinema se mantenha. Tal afirmação condiz com o pensamento da intelectual alemã Hannah Arendt, segundo a qual a origem de situações prejudiciais a um conjunto de indivíduos é a banalidade do mal, isto é, o deficiente hábito de questionamento moral diante de injustiças a outrem. Assim, por não refletir sobre o fato de que muitos indivíduos são excluídos da oportunidade de assistir filmes no cinema, a coletividade encontra-se em estado de alienação.
Verifica-se, portanto, a existência de obstáculos estruturais para a democratização do consumo cinematográfico em cinemas. Dessa forma, cabe ao Ministério da Educação, agente fundamental na formação socioeducacional dos cidadãos, o desenvolvimento de palestras informativas, a serem executadas em locais públicos - como escolas, universidades e parques -, por meio da participação de estatísticos e sociólogos que possam contribuir com dados a respeito da desigualdade no acesso ao cinema, a fim de motivar o pensamento crítico e reflexivo e romper com a banalização dessa circunstância. Com isso, espera-se proporcionar a formação de cidadãos críticos, que não se calarão diante da injusta concentração de cinemas no país.