ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 23/10/2021
Pintado por Caravaggio, o quadro “Medusa” retrata o olhar do ser mitológico ao ser decapitado. Analogamente à realidade, a reação da górgona pode ser comparada à da sociedade ao perceber a persistência das dificuldades de acesso a uma das faces da cultura, o cinema. Dessa forma, é fulcral analisar a maneira como a disposição geográfica e as relações de poder atrapalham no processo de tornar a sétima arte mais acessível.
Precipuamente, é notório que a localização dos cinemas impede que muitos os frequentem. Tendo em vista que o processo de urbanização brasileiro ocorreu de maneira tardia e em alta velocidade, as cidades foram projetadas de forma a forçar os cinemas a existirem majoritariamente nos centros de grandes cidades, próximos apenas a pessoas com maior poder aquisitivo, e distantes das mais pobres, que foram empurradas a lugares mais periféricos. E essa forma de organização espacial apenas impede a eficácia de estratégias de democratização, e colabora com a segregação. Assim, fica claro que a disposição geográfica é um fator crucial para tornar os cinemas mais populares.
Outrossim, é necessário destacar que a dificuldade de acesso às telonas é, em parte, uma tentativa de manutenção das relações de poder. Consoante o filósofo Michel Foucault, o poder é a base de todas as relações humanas, ou seja, quando pessoas interagem, elas buscam criar ou manter relações de poder, e uma vez que o cinema é uma forma de arte, dificultar o acesso a ele é impedir que pessoas tenham contato com diferentes culturas, e portanto, diferentes formas de organização social, logo, é mais conveniente deter o contato da população com a sétima arte. Este entrave torna-se evidente ao analisar dados do site Meio e Mensagem, que indicam que 83% dos brasileiros não frequentam o cinema. A essa maneira, fica claro que os empecílhos para a aproximação dos indivíduos ao cinema são tentativas de manutenção do poder.
Em suma, urge a necessidade de que algo seja feito para mitigar a problemática supracitada. Nesse ínterim, cabe ao Ministério da Cultura, por meio de parcerias político-privadas com empresas de cinema, a criação de um projeto com o objetivo de levar o cinema para lugares periféricos, para tornar as telonas geográficamente mais cessíveis. Cabe também a este, em parceria com o Ministério da Educação, a criação de um programa com o objetivo de levar o cinema às escolas públicas de cidades interioranas, com o intuito de promover já na infância o contato com esse tipo de arte. Nessa conjuntura, com essas e outras medidas, reverter-se-á a problemática, e o olhar de Medusa será contido pelas bordas de seu quadro.