ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 17/11/2021
Consoante ao sociólogo Émile Durkheim, a sociedade, assim como um “corpo biológico”, é composta por partes que interagem mutuamente e cujo bom funcionamento é fulcral à saúde do todo. Seguindo a lógica durkheimiana, fica claro que a restrição do acesso popular ao cinema no Brasil, dado que este representa uma fonte de lazer e um meio de disseminação cultural, ultraja a manutenção da coesão social. Em síntese, esse quadro é fruto das raízes elitistas do passado brasileiro, sendo, ainda, agravado pela desídia governamental na sua resolução.
Primeiramente, é importante destacar que a história do Brasil se assenta em uma realidade oligopolista, na qual diversas ferramentas sociais estiveram restritas às elites. Prova disso é que quando da chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, a modernização da cidade, com a criação de teatros e bibliotecas, deu-se em função do agrado dos membros da Corte. De maneira análoga, hodiernamente, a perenização desse cenário priva as parcelas mais desabastadas do acesso às salas de cinema e, consequentemente, segrega-as da obtenção da bagagem sociocultural difundida pelos filmes. Assim, a democratização desse meio, seja pelo incremento do número de cinemas, seja pelo barateamento dos ingressos, que, muitas vezes tornam-se onerosos aos indivíduos mais carentes, é medular à sociedade.
Faz-se mister, ademais, salientar a imperícia estatal como impulsionadora do problema. Nesse sentido, o artigo 6 da Carta Magna de 1988 atesta o direito ao lazer. Conquanto, conforme a ANCINE, nas últimas quatro décadas o número de salas de cinema no Brasil diminuiu na razão de um terço. Dado o exposto, fica evidente a indolência do governo no cumprimento das suas incumbências, visto que as salas de exibição restantes amiudadamente concentram-se nas grandes cidades, onde as condições socioeconômicas dos cidadãos são melhores, deixando as regiões periféricas à margem dessa modalidade de entretenimento. Logo, o pragmatismo da legislação mostra-se elementar à ampliação do acesso ao cinema a todos os setores sociais e, então, a efetivação do papel do Estado, fazendo valer os direitos constitucionais.
Portanto, frente a tal óbice, urge que o Ministério da Cultura destine parte do orçamento anual da nação à construção de novas salas de cinema, principalmente, nas regiões mais desabastadas, além de fornecer a entrada franca à população de baixa renda. Destarte, por intermédio do investimento público, pode-se ampliar o número de cinemas no Brasil, possibilitando o maior acesso da sociedade civil aos filmes, e por conseguinte, mitigar a oligopolização do lazer. Dessa maneira, suscita-se, que o meio social, de fato, funcione coerentemente, tal qual o “corpo biológico” de Durkheim.