ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 20/11/2021

Filósofa contemporânea, Nancy Fraser reflete sobre as desigualdades sociais e conclui que os elementos necessários para o desenvolvimento humano - saúde, educação, alimentação e lazer - são distribuídos de acordo com o poder aquisitivo dos indivíduos. Sob o mesmo ponto de vista, uma pesquisa realizada pelo IBGE, em 2019, exibe que menos da metade da população brasileira tem acesso a momentos de lazer e promove a importância da discussão acerca da democratização do acesso ao cinema no Brasil, já que esta atividade está, atualmente, restrita às populações de classe média e classe média alta que residem em grandes centros urbanos devido à falta de reconhecimento desta atividade como cultural, além da carência desses estabelecimentos nas regiões periféricas.

Diante deste cenário, é oportuno analisar a construção do espaço sociogeográfico brasileiro, no qual a distribuição de renda é historicamente desigual entre as regiões. Isto é, o ciclo do ouro, a expansão cafeeira e a industrialização foram fatores históricos que favoreceram a concentração de renda e investimentos por parte do setor privado e do Estado na região Sudeste, o que é refletido na disposição de estabelecimentos cinematográficos: ainda de acordo com as pesquisas realizadas pelo agente censitário supracitado, no mesmo ano, somente cerca de 8% dos municípios apresentavam salas de cinema, das quais a maioria se encontra nesta região. Logo, tem-se que a disponibilidade desses ambientes está relacionada com o poder de compra dos residentes, situação excludente ao passo que priva pessoas de baixa renda de consumir esse produto devido às grandes distâncias entre a periferia, região com menor expressão econômica, e os centros urbanos.

Ademais, além da privação espacial, ocorre também a privação econômica, já que o preço dos ingressos é visto como um fator limitante por diversas famílias de baixa renda. Haja vista que ir ao cinema não é reconhecido como uma atividade cultural e necessária para o desenvolvimento do indivíduo na sociedade, e, sim, uma mercadoria, não há políticas públicas eficientes para estimular o pleno acesso às salas de cinema. Em síntese, a inoperância governamental brasileira acerca dessa problemática não facilita o processo de democratização do acesso ao cinema.

Isto posto, é possível recorrer ao pensamento da filósofa suprarreferida no que tange a necessidade de redistribuição desses direitos para diminuir as desigualdades. Portanto, entende-se que para democratizar o acesso ao cinema é necessário que medidas públicas sejam tomadas pelo Governo Federal e os órgãos competentes, tal como o incentivo fiscal com o fito de atrair essas companhias cinematográficas para áreas periféricas e, assim, diminuir o desequilíbrio espacial nesse âmbito, além de subsidiar a venda de ingressos, para que estes possam ser mais acessíveis à população.