ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil

Enviada em 18/10/2023

“Nós brasileiros, somos como Robinsons; estamos sempre à espera do navio que nos venha buscar da ilha a que um naufrágio nos atirou” foi desta maneira que Lima Barreto, no texto Transatlantismo, explicitou o sentimento dos residentes de “não pertencer” ao Brasil no século XX. Infelizmente, essa sensação persiste, uma vez que os direitos, garantidos pela Constituição, não atingem a totalidade. Em face a esse cenário, a falta de democratização no acesso ao cinema evidencia o quanto a questão financeira e negligência estatal convertem residentes em forasteiros de sua nação.

A princípio, tem-se a mercantilização do lazer cultural sendo priorizada em detrimento do direito, ou seja, o consumo de obras cinematográficas é uma mercadoria que está sujeito as oscilações econômicas e não uma necessidade do brasileiro. Nessa perspectiva, as salas de cinema são vinculadas a locais de difícil acesso financeiro para a população mais carente. De acordo com o filósofo Theodor W. Adorno, em A Indústria Cultural, o capitalismo sistematiza a cultura, de modo a vendê-la. Dessa forma, a problemática não recebe atenção, pois considera-se normal.

Ademais, o Estado ignora esse problema, de modo que não providencia cinemas para toda a população. Em consonância com o filósofo polonês Zygmmunt Bauman, uma instituição, quando posicionada de forma a negligenciar sua função original, é considerada em um estado de “zumbi”. Tal fato fica evidente nos dados divulgados pela Ancine em 2019, que apontam apenas 2200 salas de cinema, em todo o país, concentradas nas regiões de grande poder aquisitivo. Dessa forma, enquanto o Estado estiver de olhos fechado, a população continuará à deriva.

Portanto, com base nos elementos supracitados, é de responsabilidade do Ministério da Cultura estabelecer um plano de expansão cultural do cinema, por meio da construção de salas em regiões carentes que diponibilizem filmes a preços simbólicos, com o intuito de possibilizar o acesso ao lazer. Assim, o Brasil poderá resgastar os Robinsons que se perderam no mar.