ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 25/01/2021
O filósofo Foucault discorre que, na sociedade pós-moderna, temas são silenciados para que arquétipos de poder sejam mantidos. Desse modo, é possível traçar um paralelo com a contemporaneidade, quando as questões relacionadas à saúde mental ainda são vistas como tabu por grande parte da população e, por conseguinte, desencorajando os que sofrem com estas a recorrerem à ajuda psicológica. Nesse contexto, não há dúvidas de que os estigmas sociais em relação ás doenças mentais são um desafio no país, derivados do histórico preconceito, bem como dos padrões sociais impostos.
A priori, é urgente analisar as nefastas concepções que geraram tal discriminação no Brasil. Nesse viés, Lima Barreto representa esta parcela populacional desamparada pelo Estado Democrático de Direito ao escrever “Cemitério dos Vivos”, que se passa em um hospício no início do século XX e denuncia os péssimos tratamentos oferecidos aos neuroatípicos da época, que eram tratados como “loucos”. Portanto, é notório que a exclusão social perante os que convivem com doenças mentais ainda é presente na hodiernidade, de maneira a vilipendiar a saúde dos brasileiros e perpetuar pré-julgamentos maléficos.
Outrossim, sociólogos frankfurtianos, como Adorno e Habermás, elaboram sua tese sobre a indústria cultural, afirmando que as grandes mídias criam uma massificação da cultura e dos costumes, padronizando o indivíduo. Por esse escopo, esses moldes atuais também são observados nas questões da psique humana, que – em meio ao aumento dos casos de ansiedade e depressão – dificultam o reconhecimento desses distúrbios como doenças sérias e que devem receber tratamento adequado. Além disso, com o advento das redes sociais, como o Instagram, os estereótipos de neuronormatividade foram reforçados, já que os usuários de tais aplicativos raramente publicam sobre suas dificuldades psicológicas, gerando um sentimento de solidão e culpabilidade nos que sofrem com essas.
A partir dos argumentos supracitados, infere-se, pois, que o preconceito com doenças mentais ainda é uma problemática a ser debatida no país Tupiniquim. Em virtude disso, torna-se papel das escolas, em parceria com a mídia, conscientizar a população acerca dos riscos de negligenciar a saúde psicológica, por meio de palestras e trabalhos lúdicos – como feiras abertas à comunidade que abordem o tema e sejam apresentadas pelos alunos – visando extinguir a discriminação perante esse importante tema. Somente assim, será possível evitar que situações descritas em “Cemitério dos Vivos” continuem a ser realidade de muitos brasileiros.