ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 19/01/2021

Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago ressalta a importância de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social, intrincada na sociedade, a qual impede a percepção dos danos causados pela estigmatização das doenças mentais. Diante disso, evidencia-se que a falta de informações acerca dos transtornos mentais, aliada aos tabus e preconceitos à eles associados, contribuem para a permanência dessa patologia social. São prementes, portanto, estratégias capazes de mitigar tanto as causas quanto os efeitos dessa problemática.

Nessa perspectiva, a série “The good doctor” retrata o cotidiano de um médico que se enquadra no espectro autista e, por isso, é visto com desconfiança pelos seus colegas de trabalho. Fora das telas, é possível notar o infeliz preconceito direcionado às pessoas com doenças mentais posto que, para muitos, essas doenças são incapacitantes ou até mesmo consideradas “frescura”. Outrossim, a falta de conhecimento e, muitas vezes, de interesse sobre os variados tipos de transtornos mentais e suas formas de tratamento contribuem para a perpetuação de diversos tabus no que tange a saúde mental. Dessa forma, são notórias as causas contribuintes para a danosa estigmatização de pessoas com doenças mentais.

Nesse contexto, de acordo com a 3a Lei de Newton, “toda ação gera uma reação”. Tal premissa enseja a reflexão de que os estigmas associados às doenças mentais trazem, como consequências, a vergonha de falar sobre sentimentos negativos e a dificuldade de interação social de pessoas acometidas por transtornos psíquicos. Posto isso, a não verbalização dos desafios enfrentados por aqueles que sofrem de depressão, ansiedade e outras doenças estimula o danoso comportamento de suprimi-los, agravando ainda mais os sinais de sofrimento. Assim, urge a necessidade de cristalizar o pensamento do “pai da psiquiatria”, Sigmund Freud, de que sentimentos não expressados nunca morrem, eles voltam mais tarde, mais feios.

Depreende-se, portanto, que a nefasta ação de estigmatizar os transtornos mentais é capaz de gerar reações à inúmeros indivíduos. Dessa forma, é peremptório que o Ministério da Saúde promova a divulgação de informações - através de palestras e “posts” em suas redes sociais - acerca dos diversos tipos de transtornos mentais, assim como da forma mais adequada de lidar com estes e, também, dos seus respectivos tratamentos. Tais atitudes devem ser tomadas com o fito de minimizar a problemática do preconceito e fomentar a normalização da fala sobre as doenças mentais.