ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 19/01/2021

Segundo René Descartes, filósofo racionalista, “a ciência é uma verdade insegura, pois pode trazer mais desafios ao homem”. De fato, após muitos séculos os mistérios da psicologia humana foram, finalmente, parcialmente desvendados. Entretanto, ao mesmo tempo em que a medicina evolui rapidamente, mais debilitada aparenta ser a saúde mental das pessoas, devido a ferramentas típicas da atualidade como a internet. E, apesar da enorme presença de transtornos psicológicos nos cidadãos, o preconceito e o tabu sobre esse assunto ainda prevalecem.

Em primeiro lugar, é notório citar o vício em redes sociais como a principal causa do desenvolvimento de diversas doenças psicológicas na contemporaneidade. Assim como o conceito de “cultura de massa” desenvolvido pelos filósofos frankfurtianos, esses sites têm um papel essencial em ditar valores e padrões de beleza e comportamento vigentes. Ao acessarem redes sociais como Instagram, muitos indivíduos, sobretudo garotas adolescentes, veem corpos pertencentes a um mesmo formato, que não se encaixa ao seu. Logo, essa falta de representatividade corporal e social desencadeia o surgimento de transtornos como anorexia e depressão, que chega a afetar 30% mais mulheres do que homens. Esta necessidade de se sentir sempre atraente e feliz nas redes sociais é bem exemplificada no episódio “Queda Livre” da série televisiva “Black Mirror”, que retrata uma sociedade na qual a popularidade nas redes corresponde ao status social das pessoas.

Além disso, essas redes afetam massivamente o psicológico de seus usuários nos crescentes linchamentos virtuais em sites como o Twitter. Neles, um número elevado de contas, ao exporem uma simples opinião, são ofendidas e ameaçadas anonimamente. Consequentemente, esse comportamento pode levar a doenças mentais nas vítimas, como depressão, o que, em casos mais graves, pode levar a até mesmo um suicídio. Um caso recente que retrata a situação foi o da cantora e atriz sul-coreana Sulli, que tirou sua própria vida após um contínuo cyberbullying sofrido dos internautas de seu país, que a atacavam apenas por ser bastante aberta sobre suas crenças feministas, visão considerada absurda em uma sociedade conservadora como a coreana.

Portanto, para superar os desafios científicos propostos por Descartes, torna-se necessário o investimento em ciência. Por isso, urge ao Ministério da Saúde investir na área psicológica infanto-juvenil, por meio de verbas governamentais, visando um aumento na qualificação de psicólogos. Esta ação trará um aumento na disponibilidade de profissionais que aconselhem os responsáveis maneiras de melhorar os impactos feitos pela internet nas mentes dos jovens. Assim, torna-se possível a construção de uma nação mais mentalmente saudável e sem estigmas relacionados à saúde mental.