ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 19/01/2021

A célebre frase “No meio do caminho tinha uma pedra”, cunhada no poema drummondiano, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, obstruem o percurso de sua vida. Fora da ficção, tal poesia se reflete no contexto atual, já que, no meio do caminho do combate aos estigmas associados às doenças mentais, existem “pedras”. Diante dessa perspectiva, é preciso assumir a postura de um geólogo, com a intenção de analisar as medidas a serem aplicadas para que as rochas, ora do Estado, ora da falta de empatia, sejam levadas ao intemperismo.

Vale destacar, de início, que a desídia governamental impulsiona a vulnerabilidade dos cidadãos. Isso porque, segundo Aristóteles, em seu livro “Ética a Nicômoco”, a política existe para preservar a felicidade da nação. No entanto, o cenário hodierno rompe com o ideal proposto pelo filósofo, visto que, em razão de as pessoas estarem inseridas em uma sociedade frenética - alta carga de ofício e sem tempo para o ócio e o lazer - cuidar da saúde mental está cada vez mais difícil. Tal motivo, além de prejudicar a eficiência laboral de muitos trabalhadores, acarreta instabilidade no cotidiano populacional, a exemplo do mal convívio entre pais e filhos. Dessa maneira, vê-se a necessidade de apoio do poder público, seja pelo setor legislativo, seja pelo Ministério da Saúde.

Faz-se mister, ainda, salientar a falta de empatia como potencializadora das patologias psiquiátricas. Isso pode ser explicado pelo fato de a coletividade nupérrima viver em um “Estado de Anomia”, definido pelo sociólogo Émile Durkheim, como um espaço de descontrole gregário, em virtude do egoísmo e do preconceito. Em consequência disso, conforme o médico Dráuzio Varella, 65% das pessoas que sofrem de depressão ou ansiedade não recebem a assistência adequada de seus familiares, sobretudo, por conta do individualismo, fator que intensifica o sentimento de desprezo e abandono nesses enfermos. Desse modo, evidencia-se que a falta de empatia e de altruísmo corrobora para o desgaste mental de inúmeras pessoas.

Portanto, com o intuito de mitigar os estigmas causados pelas doenças mentais no Brasil, cabe ao Governo criar políticas públicas, mediante leis - que determinem a implementação de disciplinas educacionais, na grade curricular, que ensinem, desde cedo, todos os cidadãos a organizarem sua rotina, tanto para o trabalho, quanto às demais atividades do dia a dia -, a fim de evitar que a vida da população seja preenchida somente com os ofícios e, assim, prevenir as doenças psiquiátricas. Ademais, tais ações devem ser realizadas em parceria com o Ministério da Saúde, por intermédio de palestras sobre a importância da empatia no combate às doenças mentais na sociedade brasileira, com a finalidade de permitir que a coletividade tenha uma boa higidez mental.