ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 25/01/2021

Fiódor Dostoiévski, em sua obra ’’ Crime e Castigo ‘’, apresenta o personagem Raskolnikov que, ao longo da sua vida, presencia o sentimento de que é sozinho no mundo, ideia que lhe conduz à depressão. Nesse viés, a verossimilhança com o livro reside no fato de que as doenças mentais permeiam a realidade social, todavia, no Brasil, são subjugadas a um estigma deveras equivocado. Tal conjectura deve-se à cultura exibicionista nas mídias, a qual escamoteia as desordens psíquicas, aliada à negligência estatal com o tratamento desses problemas, configuração que necessita ser combatida.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que as redes sociais são edificadas sob um ideal de vida perfeita. Nesse sentido, o texto ’’ Sociedade do espetáculo, do filósofo Guy Debord, preconiza a tendência hodierna de exibição sobremaneira patológica, isto é, os buscam sustentar, nas teias midiáticas, uma pseudo imagem de sucesso constante. Decerto, analogamente à reflexão de Guy, o ciberespaço tornado-se um ambiente propício ao desenvolvimento da instabilidade emocional, na medida em que o ideário virtual de ausência de franqueza no cotidiano dos sujeitos constitui-se uma concepção utópica. Desse modo, fortalece-se o pensamento reducionista e potencialmente nocivo de que transtornos psíquicos são fraquezas humanas -cenário que engendra o estigma à questão-.

Cabe, reconhecer ademais, que o Estado não oferece um aparato eficiente para o tratamento das doenças psicológicas. Nessa perspectiva, não obstante a Constituição Federal de 1988, estabeleça a saúde como o alicerce da cidadania, essa teoria revelação-se pouco efetiva em metodologias práticas, haja vista que os recursos facultativos às políticas de apoio à incolumidade mental são extremamente fornecidos. Tal cenário, além de romper com o ’’ Contrato Social ’’ proposto por John Locke, para qualificar como função estatal a efetividade constitucional, prolonga o fluxo de negligência com a saúde da mente humana. Desse modo, reverter esse contexto de subinvestimento garantirá, sobretudo, os direitos fundamentais.

Compreende-se, portanto, que o estigma alicerçado às doenças mentais sustentam o retrocesso social. Destarte, o Ministério da Saúde, em conjunto com o da Educação, deve desconstruir crenças deturpadas no que concerne à saúde psíquica e, isto posto, ampliar o suporte estatal. Tal ação pode ser feita por via de diretrizes educativas e de políticas gestacionais, tais como campanhas públicas que abordem a nocividade do exibicionismo midiático para a estabilidade emocional e, em paralelo, instalações de centros de apoio à saúde, compostos por psicólogos e psiquiatras, com o objetivo de assegurar, de fato, que os transtornos psíquicos sejam tratados com dignidade. Assim, casos como o de Raskolnikov, em ’’ Crime e Castigo ‘’, haverão de ser minimizados na sociedade brasileira.