ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 28/01/2021

Na obra pré-modernista “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto narra a história de um brasileiro obceado por estudar as potencialidades econômicas nacionais. Por isso, ele é estigmatizado, como “louco”, internado em um hospital psiquiátrico e, posteriormente, sofre discriminação por parte de seus familiares, o que o leva a um isolamento social e morte. Assim, embora ambientado no início do século XX, no Brasil atual, a história desse personagem ainda se repete, pois há estigmas associados às doenças mentais, causados por construções sociais, e que tem feito milhares de brasileiros sofrerem psicologicamente calados.

Em primeiro lugar, cabe destacar que, para o pensador francês Pierre Bordieu, os preconceitos existentes na sociedade são anteriores e exteriores aos indivíduos. Ou seja, eles são baseados em uma construção social, a qual - no contexto dos estereótipos das doenças mentais- faz com que hajao estranhamento e punição (isolamento) do diferente a fim de torna-lo “normal” aos olhos da sociedade. Dessa forma, qualquer indício de anormalidade ou transgressão nos traços de humor, comportamento ou dificuldade de lidar com situações adversas, como traumas, esses brasileiros, que precisam de ajuda, são categorizados e taxados como loucos, assim como Policarpo Quaresma.

Por consequência desse panorama social, milhares de brasileiros são punidos, simbolicamente com descrédito de suas condições psicológicas, e hesitam em procurar auxílio. Além disso, os amigos e famíliares, por estarem submersos na piscina cultural do estigma à saúde mental, negligenciam a assistência necessária, seja para conversas cotidianas sobre o bem-estar, seja para indicar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Por isso, não é surpresa que haja crescimento das taxas de tentativas de suicídio no país, segundo o Ministério da Saúde, o qual, muitas vezes, de acordo com a psiquiatra Maria Rita Kehl, é o primeiro pedido de socorro dos indivíduos acometidos psicologicamente.

Nesse sentido, fica claro, portanto, o perigo da estigamtização das doenças mentais no país. Dessa forma, faz-se necessário que o Ministério da Saúde - executor nacional das políticas públicas de saúde- crie e implemente campanha sobre a importância da saúde mental. Para isso, pode-se utilizar os profissionais, como psicólogos e psiquiatras das Equipes de Saúde da Família, para fornecer orientações, por meio de palestras, nas escolas e bairros. Dessa forma, poderão ser criadas condições para promoção da saúde mental e prevenir que outros brasileiros tenham o mesmo fim que Policarpo Quaresma.