ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 24/02/2021

No canônico livro “Jane Eyre”, da escritora Emily Brontë, é reproduzido um emblemático caso de loucura. Na obra, Bertha, ex-esposa de um dos protagonistas, é abandonada por ele ao ser taxada de louca, e, em seguida, trancafiada no sótão, lugar isolado do restante da casa. Apesar da fictícia, a cena supracitada pode em muito relacionar-se com a situação de muitas pessoas acometidas por doenças mentais no Brasil, dado que elas também penam pelo preconceito que vivenciam. Nesse sentido, o cenário decorre não só de um processo histórico que fomentou o isolamento dessas pessoas, mas também da hodierna reprodução midiática de um padrão nocivo de normalidade.

Primeiramente, cabe apontar que é histórica a origem no tratamento de pessoas com comportamento mental desviante.      Nesse seguimento, está correto o Maquiavel ao dizer que “O preconceito tem mais raízes do que os princípios”, pois, com efeito, o desdém relegado a essa parcela da população é já antigo. A exemplo dessa constatação, toma-se o filme biográfico “Nise: no coração da loucura”, que retrata o cotidiano da psiquiatra Nise da Silveira em um sanatório. O filme é ambientado no Rio de Janeiro em meados do século XX, e é enfático ao expor as violentas terapias de choque e lobotomias pelas quais passavam os internos do lugar, tidos como completamente incapazes.

Ademais, deve-se assumir que veículos de comunicação propagam uma noção de normalidade que não contempla àqueles que têm doenças mentais. Desse modo, conforme explica Pierre Bourdieu, há aqui a manifestação da violência simbólica, que, embora invisível, modela, através do poder da mídia, um comportamento padrão e irrevogável.

À vista do exposto, infere-se que medidas de contenção da atual problemática devem ser tomadas. Para tanto, é preciso que o Ministério da Saúde, em parceria com escolas, promovam um programa de intensa inserção artística de pessoas com problemas mentais na comunidade. Tal projeto leva em conta a exibição de obras de arte por ser esta um meio de comunicação universal e acessível, tendo por fim a exibição de obras artísticas das pessoas em questão. Assim, muito se fará para que o estigma relacionado a doenças mentais seja extirpado.