ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 26/10/2021
No filme “Tempos Modernos”, Charlie Chaplin critica as condições precárias de trabalho no período da segunda revolução industrial, dentre as quais muitos trabalhadores eram submetidos a repetições mecânicas e cargas horárias abusivas, inferindo, assim, graves problemas físicos e psicológicos. Nesse sentido, fora da ficção, essas negligências com a saúde mental persistem na sociedade brasileira, visto que a falta de informação e o culto contemporâneo pelo trabalho são catalisadores dos estigmas associados às doenças mentais. Portanto, faz-se necessária uma análise dessa conjuntura.
Em primeira análise, a desinformação populacional, intensificada pela omissão do Estado, contribui para que a problemática dos estigma relacionado aos distúrbios mentais continue a permear a sociedade brasileira. Com efeito, segundo o documentário “Holocausto Brasileiro”, a generalisação do quadro clínico de pessoas com distúrbios psíquicos gerou uma hecatombe social, afetando principalmente pessoas marginaliziadas ou fragilizadas. Nesse aspecto, devido à escassez da divulgação de informações nas redes midiáticas sobre a importância da identificação e do tratamento das doenças psicológicas, há a relativização de quem é aceito no convívio social. Desse modo, assim como no curta-metragem, os arquétipos paulatinamente associados a este tipo de doenças, infelizmente, estimulam ainda mais a marginalização desses indivíduos.
Por conseguinte, hodiernamente em consonância com a proposta de Chaplin, o filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, em seu ensaio “Sociedade do Cansaço”, exprime a ideia do indivíduo empresário de si na procura pela alta produtividade. Nessa perspectiva, a sua sanidade mental inevitavelmente sofrerá sérios danos, pois não haverá nenhuma regulamentação dos excessos pelo desempenho autopromovidos. Dessa forma, é indubitável que o trabalho demasiado e seu estilo de vida acaba sendo resultado de uma dissonância cognitiva, que estigmatiza e banaliza as doenças psíquicas em torno de uma corrida pela produtividade inalcançável.
Depreende-se, portanto, a necessidade de combater os estigmas associados às doenças mentais no Brasil. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação, inserir nas escolas, por meio de alterações na Base Nacional Curricular Comum, palestras e oficinas, para desenvolver a capacidade estética e expressiva de se colocar no lugar do outro de maneira lúdica, articulada à reflexão da psicologia sócio-histórica, a fim de formar cidadãos mais tolerantes e conhecedores dos transtornos mentais reduzindo a segregação social. Por fim, dessa maneira, também será possível oxigenar mudanças significativas no ambiente de trabalho e, ademais, reduzir a banalização desses estigmas, afastando da realidade a construção ficcional da obra de Chaplin.