ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 19/08/2021

Em 18 de maio de 1987, nasceu a proposta de reforma no sistema psiquiátrico brasileiro após a reunião de profissionais de saúde e civis favoráveis às políticas antimanicomiais. Depreende-se desse movimento a necessidade do exercício da cidadania para com os pacientes portadores de transtornos mentais, incluindo-os na sociedade e na rede familiar, em vez de isolá-los como ocorria nos manicômios da época. Não obstante os esforços dessa parcela da população em humanizar os tratamentos oferecidos e quebrar os estigmas acerca dessas doenças, ainda hoje há o legado lamentável de décadas da cultura pautada na eugenia e higienismo, tão presentes no Brasil do século XX, além das dificuldades estruturais ao levar o debate no tocante à saúde mental para todos.

Primordialmente, a partir dos relatos de sobreviventes dos manicômios brasileiros, notam-se as raízes do preconceito em todo o sistema opressor dessas instituições. Lima Barreto, memorável literato, relata a sua experiência de internação no livro ‘‘Diário do hospício’’, como, por exemplo, a obrigação da troca de roupa, com vestimentas decadentes e inadequadas, o que retirava as individualidades dos internos. Além disso, o caminho violento e humilhante até o hospital era feito em camburões apertados, diante dos olhos de toda a sociedade. Naquele ambiente, não havia apenas cidadãos em sofrimento psíquico mas, também, todas as classes apartadas do convívio social, como os pobres e negros. Dessa forma, o hospício além de um lugar de desumanização também foi de limpeza social, para onde eram levados os seres indesejados de acordo com ideais da elite branca e, portanto, os maus-tratos e a marginalização desses indivíduos perduram no presente do imaginário nacional.

Outrossim, entraves na promoção ao acesso à saúde mental, no que tange debates, psicoterapia e atendimento médico psiquiátrico de qualidade são fatores importantes na persistência dos estigmas sobre esse assunto. Dessa maneira, de acordo com o Atlas de Saúde Mental 2017, realizado pela OMS, a realidade mundial é insatisfatória no quesito profissionais treinados e instalações especializadas, além de poucos planos de prevenção ao suicídio. Assim sendo, no panorama brasileiro, soma-se às lacunas da educação preventiva, a sobrecarga no SUS que, muitas vezes, compromete o tratamento da população necessitada, além de altos e inacessíveis valores do acompanhamento particular.

Portanto, cabe ao Ministério da Saúde garantir campanhas de prevenção e conscientização no concerne às doenças mentais por meio de aulas nas escolas e eventos especiais ao público. Além disso, deve garantir o atendimento proporcional às demandas dos brasileiros nas unidades de saúde e hospitais, a fim de que a sociedade se conscientize, rompa a cultura estigmatizada e possa vivenciar um tratamento humanizado quando for necessário.