ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 17/05/2021
A obra “A história da loucura", de Michel Foucault, analisa o que é a loucura segundo o acordo que é criado a partir da leitura da sociedade pelos grupos hegemônicos; qualidade de alguém que sai do padrão de produtividade e por isso, é taxado como inútil. Nessa mesma obra, o autor afirmou não gostar dessa classificação já que, se os doentes mentais são inúteis por não produzirem , logo, o resto das pessoas seriam saudáveis, sendo que a saúde mental compreende a imperfeição e limitações humanas, estando relacionada a capacidade de equilíbrio e enfrentamento do indivíduo. Infelizmente, a sociedade brasileira não compartilha dos mesmos pensamentos de Foucault, o estigma sobre as doenças mentais é real, sobretudo, devido a ordem da produtividade e a negligência estatal sobre a temática. É de suma importância evidenciar que a crescente ordem da produtividade é um dos principais fatores que perduram nesses estigmas no Brasil. A associação de portadores de transtornos mentais à improdutividade é algo comum, entretanto, hoje em dia, há uma internalização de uma ordem, criando um desejo coletivo pela produção, seja no contexto da escola, do trabalho ou até nas casas. Segundo o livro “Sociedade do Cansaço”, de Byung Chul Han, a pressão por produtividade internaliza nas pessoas a mentalidade da positividade tóxica, gerando uma liberdade paradoxal, visto que é propagado a idéia de que é possível fazer tudo, sendo que essa falta de limite e excesso leva a exaustão, ansiedade e depressão. Por fim, observa-se o aumento de casos de pessoas com transtornos psicológicos e intensificação do estigma, já que há uma cobrança sobre os outros por produtividade, e uma invalidação das dificuldades daqueles que se encontram com a saúde mental debilitada. Outrossim, a negligência do Estado perante a condição de precária saúde mental de grande parcela da população brasileira é outro agravante do estigma social criado a respeito dessas pessoas. A escassez de verba pública direcionada a profissionais da área, como psicólogos e psiquiatras resulta no retardo ou na privação do tratamento dos pacientes, levando à exclusão desse grupo, que fica à margem da sociedade e em uma posição frágil, a mercê do preconceito e da discriminação. De acordo com o centro de informações do Hospital de Psiquiatria de Santa Mônica, a saúde mental é um determinante para a estabilidade física e também está relacionada ao bem-estar e à qualidade de vida. Assim, o descuido do Estado com as pessoas que sofrem por doenças mentais é um descaso que gera sofrimento e catalisa o estigma social, afinal, a mensagem passada é que se nem o próprio Estado protege essas pessoas, há uma desmotivação para a população o fazer. Consequentemente, é essencial que medidas sejam tomadas para extinguir o estigma agregado às doenças mentais. As secretarias de educação devem promover campanhas educativas de conscientização da problemática da ordem da produtividade em locais públicos, visto que atualmente é um problema que atinge diferentes tipos de pessoas em contextos diversos. Deste modo, haveria o esclarecimento do conceito de positividade tóxica e seus riscos no contexto de produtividade. Cabe também ao governo federal rever a lista de prioridade de auxílio financeiro, visando a melhora da acessibilidade a sessões de terapia ou psiquiatria, logo, a sociedade brasileira estaria mais próxima dos pensamentos do sociólogo Michel Foucault.