ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 20/05/2021

Na série televisiva “Spin Out”, a jovem patinadora artística Katerina Baker, portadora do transtorno bipolar e protagonista da trama, busca uma vaga nas próximas Olimpíadas de Inverno com seu parceiro, Justin Davis. Durante sua trajetória, entretanto, Baker encara desafios em sua vida pessoal e profissional ao tentar esconder sua doença dos colegas de trabalho, com medo de perturbar relacionamentos e prejudicar sua carreira atlética. Fora da ficção, é fato que a sociedade brasileira ainda exibe questões no que tange ao estigma associado às doenças mentais, em decorrência não só da lógica capitalista neoliberal, como também da negligência do Estado.

Em primeira análise, cabe ressaltar que, em função do pensamento industrial do neoliberalismo, os vínculos sociais são infectados com estereótipos de desprezo e reprovação às doenças mentais. Segundo o filósofo Byung-Chul Han, em seu ensaio “Sociedade do Cansaço”, há um excesso de positividade em todas as esferas da sociedade contemporânea em que predominam mensagens de produtividade e sucesso pessoal. Nessa perspectiva, os sujeitos portadores de distúrbios mentais, por apresentarem vulnerabilidade psíquica, não acompanham os ideais prescritos e são rotulados com adjetivos relacionados à loucura e invalidez. Dessa forma, verifica-se que o estigma associado às psicopatologias advém duma positividade tóxica que extrapola o ambiente de trabalho.

Outrossim, observa-se que a inércia estatal em relação à inclusão de indivíduos portadores de doenças mentais na sociedade potencializa a problemática. De acordo com o educador brasileiro Paulo Freire, quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio desse status quo e procurar soluções. No entanto, esse exercício é impossibilitado no que se refere às psicopatologias, uma vez que esses distúrbios não são abordados nas escolas e na mídia. Enviesados pela lógica neoliberal, esses espaços procuram apresentar apenas pessoas mentalmente saudáveis e racionais, criando no imaginário popular a ideia de que esse é o padrão de normalidade. Desse modo, pela invisibilidade dada aos transtornos mentais, os estigmas são agravados.

Destarte, medidas são necessárias para mitigar o quadro atual. Para tanto, com o amparo de verbas públicas, urge ao Ministério da Cidadania – instituição responsável pelo desenvolvimento social – criar campanhas nos meios de comunicação social, como televisão e redes sociais, nos quais psicólogos abordem as doenças mentais com os tópicos: quais são, como se manifestam e o que fazer. Isso deverá ser feito a fim de que os indivíduos tenham acesso à informação, possibilitando que os portadores de psicopatologias deixem de ser invisibilizados. Assim, tornar-se-à possível a superação dos estigmas associados aos transtornos mentais, evitando situações como as vivenciadas por Baker.