ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

Enviada em 18/05/2021

O filme ‘’Nise: O coração da Loucura’’ retrata as experiências da médica Nise da Silveira em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro, onde os enfermos, vistos como ‘’loucos’’, recebiam eletrochoques e lobotomias. Na obra, a psiquiatra rejeita essas violentas práticas de assistência e opta por abordagens mais humanizadas, como a arteterapia. Além de denunciar a natureza agressiva dos tratamentos da época, o longa-metragem também encontra correspondências na atualidade, uma vez que o estigma associado às doenças mentais no Brasil ainda permanece, o que acontece em virtude do preconceito existente em relação aos doentes e da omissão estatal.

Em primeiro lugar, é preciso pontuar que a desinformação da sociedade brasileira é a principal causa da problemática. Apesar da grande disseminação de informações proporcionada pelo avanço da tecnologia, muitos cidadãos ainda não estão suficientemente conscientes sobre pautas sociais importantes. Segundo o educador Paulo Freire, a educação se relaciona diretamente à forma como as relações sociais são estabelecidas na coletividade. Assim, observa-se que aqueles que não possuem acesso a uma rede de ensino eficiente não são capazes de mensurar as adversidades, multiplicidades e complicações envolvidas nos espectros das doenças mentais, o que perpetua os estigmas relacionados a elas.

Ademais, convém ressaltar que a negligência do Estado em relação à saúde mental dos brasileiros agrava o impasse. De acordo com o Artigo 196 da Constituição Federal, ‘’a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos’’. A realidade enfrentada pelos profissionais da área de saúde mental no país, no entanto, ainda é definida pela má gestão administrativa e pelos escassos recursos financeiros disponibilizados pelo governo, o que faz com que uma parcela da população não receba tratamento oportuno e adequado. Assim, evidencia-se que o Estado negligencia a saúde mental dos cidadãos na medida em que não investe em políticas que proporcionem atendimento adequado dos indivíduos comprometidos por essas doenças.

É preciso, portanto, que surjam medidas interventivas para amenizar o estigma associado aos transtornos. Com os objetivos de pôr fim à marginalização dos doentes e de mitigar o preconceito existente, o Governo Federal deve, aliado às Secretarias Municipais de Saúde, criar redes de acolhimento dos sujeitos enfermos por meio de políticas públicas, sensibilizando os demais cidadãos que não são afetados por essas patologias. Somente assim, será possível que a realidade seja, então, distinta daquela apresentada no filme ‘’Nise: O coração da Loucura’’.