ENEM 2020 - O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
Enviada em 21/05/2021
Há menos de cinco décadas, o Brasil ainda concebia o tratamento desumano e torturador como adequado para cidadãos portadores de doenças mentais. Foi só em 1987, com a luta antimanicomial, que os direitos humanos passaram a ser garantidos por lei dentro de instituições psiquiátricas. Mesmo com os avanços que o sistema de saúde tem tido quanto ao cuidado desses pacientes, a sociedade brasileira ainda enfrenta a associação de estigmas intensos a doenças mentais. É, portanto, importante compreender que estigmatizar, isto é, qualificar pejorativamente uma pessoa, com base na presença de uma doença mental é um dos principais agravantes das altas taxas de depressão e suicídio no país.
Em virtude da construção humana de um link imaginário entre silêncio e força, a ocultação do sofrimento pessoal é equiparada há séculos com ato de heroísmo. Desta forma, ao se desenvolver em qualquer sociedade, inclusive na brasileira, o indivíduo aprende a enxergar como inferiores aqueles que têm dificuldade em silenciar ou controlar suas emoçoes. O desafio em lidar com emoções é muitas vezes característico de doenças psicológicas e, portanto, é comum que portadores dessas condições enfrentem estigmatização frequente por parte daqueles que os cercam.
Por conseguinte, o medo de demonstrar fraqueza costuma ser uma das maiores causas da rejeição ao tratamento psiquico profissional. Todas as doenças psiquiátricas, assim como doenças fisiológicas, exigem cuidados apropriados e especializados. Sendo assim, o estigma que a sociedade brasileira e os indivíduos que a compõem associam a doenças mentais podem diminuir drasticamente a qualidade de vida da população, seu rendimento socioeconômico e até mesmo causar a morte. Desta forma, não é de se surpreender que os números de suicídios e ingresso ao pronto socorro psiquiátrico estejam subindo.
Uma vez que doenças mentais são uma questão de saúde pública, umas das intervenções mais eficazes contra sua alta taxa cabe ao Ministério da Saúde. Assim como foi feito contra o uso de tabaco e contra as IST’s, o ministério deve criar uma campanha sobre a conscientização de doenças mentais que aborde-as como legítimas. Essa campanha deve também retratar a importância do tratamento psiquiátrico e psicológico profissional através de cartazes, comerciais televisionais e distribuição de cartilhas. Afinal, o estigma associado às doenças mentais é o principal impedimento de sua cura, como bem mostrou Nise da Silveira, figura fundamental para a luta antimanicomial no Brasil que inspirou o filme Coração da Loucura.